José Jeronymo Rivera: poeta e tradutor

Anderson Braga Horta
In: Do que É Feito o Poeta
Thesaurus, Brasília, 2014 (no prelo). 


Academia de Letras do Brasil, Brasília,
em 11 de agosto de 2004.

No remoto ano de 1950, numa pequena cidade mineira da Zona da Mata, um grupo de adolescentes, vindos de diversos pontos do Estado e do País, reuniu-se como que por obra do acaso, e essa reunião foi cimentada por afinidades logo percebidas, que imediatamente se transformaram em amizade. Era a veneranda cidade de Leopoldina, onde, um quarto de século antes, freqüentara o então Ginásio Leopoldinense o jovem português Adolfo Correia da Rocha, que mais tarde, de volta à pátria, brilharia como estrela literária de primeira grandeza, com o nome de Miguel Torga; era a tradicional e culta Leopoldina, onde, no ano que marcou o início da 1.ª Guerra Mundial, sofreu seus últimos dias o grande poeta do Eu, o paraibano Augusto dos Anjos.
Os rapazes que então se encontravam, atraídos pela boa fama do Colégio Leopoldinense, dir-se-ia que só então chegavam, de fato, ao termo do processo de nascimento. Com efeito, experimentariam, a partir dali, as primeiras amizades verdadeiras, desvinculadas dos folguedos infantis. Longe de casa, tiveram então um começo de vida independente. Primeiras responsabilidades. Para alguns, como José Jeronymo Rivera e eu, primeiro trabalho ¾ professores que fomos de jovens internos do Seminário. Primeiros amores. Descobrimento da poesia.

No princípio era o caos. A noite tenebrosa

Cobria a imensidão sombria e silenciosa
Como um negro sudário, amortalhando o espaço,
Num amplexo fremente, em sepulcral abraço!…
E Deus criou a luz! E logo o mundo inteiro
Banhou-se em resplendor, e um celeste chuveiro
Dos astros derramou-se, em profusão brilhante,
Por sobre a Terra nua, agreste e deslumbrante.
E Deus criou a vida! E as árvores surgiram
Em bosques de verdura, e o deserto cobriram!

De peixes povoou-se o oceano azul e calmo.

E toda a criação, entoando ardente salmo,
Glorificava o Ser onipotente e bom

Que a tudo concedera o doce e suave dom

De gozar a beleza e a liberdade e a paz
Deste Éden de delícia e de ventura tais!
Os pássaros no céu cantavam docemente
Festivos madrigais, num voejar fremente…
As flores em botão, nos bosques, entreabriam
As pétalas sorrindo, e os colibris desciam
Do espaço p’ra beijar os cálices floridos…
Das fontes a brotar, filetes coloridos,
Refletindo o luzir do Astro-Rei no Infinito,
Banhavam-se de prata, em misterioso rito…

E tudo era alegria… e, entanto, o Criador

Sentiu que embora belo e cheio de calor
O mundo era imperfeito: inda faltava alguém
Que viesse completá-lo, e desfrutar também
A doce suavidade, a paz do Paraíso…
E o homem foi criado ¾ e logo, num sorriso,
De fé e de esperança envolveu toda a Terra
E o mar, e o vale, e a mata, e a resplendente serra…
Cito versos de Rivera, dos que escreveu naqueles primórdios de riquíssima semeadura. A esses não deu prosseguimento. Por quê? Não sei, mas estou a imaginar se não desejaria o jovem poeta, inconscientemente, manter-se in æternum nos alvissareiros, nos doces inícios, com as suas lutas, é fato, mas ainda não com as desamparadas batalhas em que a vida costuma exercitar os seus filhos.
A citação não é sem propósito. Leopoldina foi para nós, de certa maneira, o começo do mundo. E que bom que esse começo tenha sido poético, repleno de fé no ser humano e na vida.
Daquele pugilo de adolescentes que ali se reuniam para levar o mundo nos ombros é preciso lembrar alguns nomes, pelo menos os dos mais afinados ao diapasão da poesia. Iniciavam todos a marcha do país da esperança para o das realizações (e das frustrações, ai de nós!), e o rito de passagem era oficiado pelas musas. Para a maioria o rito se perdeu nas primeiras curvas do caminho; mas para uns poucos o sacrifício poético (sacrifício, aqui, no sentido de oferenda, não de martírio) seria por toda a existência.
Junto de José Jeronymo orbitavam a vida: Deodato, seu irmão, dois anos mais moço – que, de Leopoldina e do Rio, aportaria a Brasília e daqui, logo que se implantou a ditadura, ganharia o mundo, para curtir longo exílio; Hélcio Campomizzi, que se formaria em Odontologia e em Medicina e teria a trajetória prematuramente truncada pelo coração explosivo; José Herberto Dias, que também passaria por este altiplano, sem nestes cerrados lançar raízes; Luiz Henrique Pessina, que, devotado antes à poesia das formas que à das palavras, se tornaria arquiteto, abrilhantaria o magistério da profissão em Brasília e está hoje entre nós; Amaury Pacheco, representando outra vertente nessa cadeia em que a comunidade maior era, afinal, a da amizade  – engenheiro, constituiria seu destino em terras fluminenses; e outros tantos amigos, e amigas, cuja relação devo em tempo sustar, para não inundar esta hora de nomes plenos de sentido para Rivera – e para mim – , mas não para a maioria dos amigos que nos prestigiam com sua presença.
Algumas outras figuras, entretanto, quero ainda lembrar, para dar uma idéia da atmosfera humana que insuflava aquele punhado de quase-meninos:
Assim meu colega de turma Sebastião Murilo… de quê, mesmo? os nomes vão-se apagando da memória… Sebastião Murilo Pereira de Oliveira, negro e tímido, contrastando com o muito branco e extrovertido Gustavo Monteiro de Castro Júnior, poetas ambos, ambos demasiado cedo colhidos.
O dentista Murilo Monteiro de Castro (quantos Murilos poetas em Minas!), que se foi também prematuramente, afogado, em meio a férias que gozava em São Pedro dos Ferros. Esse dentista-poeta, morto sem ver seus versos publicados, dando, certa feita, atendimento profissional a Rivera, deu-lhe de quebra ¾e a mim, que o acompanhava¾eloqüente atendimento versífico, discorrendo com proficiência sobre a mecânica do alexandrino, que porfiávamos por dominar.
O desenfreado, pálido, estranho, solitário Haroldo Barreto, sonetista de valor, que saía da toca para, violino em punho, acompanhar-nos em nossas escapadas vespertinas ou noturnas.
René Monteiro de Castro, advogado, que se unia a nós, tão mais moços, e conosco fraternizava e conosco se confundia, talvez por encontrar em tal companhia o universo de sonho, de primavera, de liberdade e de culto às letras, que alhures não via…
Do corpo docente destacavam-se:
Joaquim Guedes Machado, português, professor de Matemática (que já o fôra de meu pai), homem de sensibilidade, violinista, famoso pela vivacidade intelectual e por certa truculência (que já encontramos atenuada) para com os alunos relapsos. Conta-se que chegou a botar para fora, ou melhor, jogar fora de classe, pela janela, um ou outro mais nonchalant ou mais atrevido. (Amenize-se: as janelas eram baixas… Davam para um corredor interno aberto em direção ao pátio.)
Seu amigo, e antípoda pelo temperamento manso e reservado, com quem decerto recordava passagens de sua vida no além-mar, Monsieur Rodolphe Gibrat. Lecionava Francês e Espanhol.
Lydio Machado Bandeira de Mello, advogado, poeta, matemático e filósofo. Impressionava com o título de um de seus livros ¾Prova Matemática da Existência de Deus¾ e com suas divagações sobre uma espécie de memória do Universo contida nas raias de hidrogênio espalhadas pelos espaços. Publicou vários livros, alguns caprichosamente manuscritos. Fez brilhante carreira em Belo Horizonte, como professor universitário.
Oiliam José, historiador, lecionava também Filosofia. De modos ascéticos, disciplinadíssimo, severo, dedicado. Vive hoje na capital do Estado. Autor de livros de história e de poesia, é membro e secretário perpétuo da Academia Mineira de Letras.
Hamil Adum, professor de Inglês. Competente, singularizava-se por fazer boa camaradagem com os discípulos.
Geraldo de Vasconcellos Barcellos, poeta. Dava aulas de Português, Biologia e Química. Entre esses extremos, distinguia-se por bem orientar e estimular, poeta que era, os bardos al primo canto. Deodato Rivera, já no Rio de Janeiro, em 1996, organizou um mutirão de ex-alunos para editar um de seus livros, Para Elza, de que me coube o prefácio.
A temida Professora Regina Monteiro de Castro (de Desenho e Francês), Dona Olimpinha, Dona Belinha e Dona Judith, esposa do Professor Machado, davam a nota feminina no magistério.
Monsenhor Guilherme de Oliveira, o Monsgo, como o chamávamos, devido à maneira abreviada com que se assinava, não lecionava, mas era o diretor do Colégio. Muito pequeno, franzino e tranqüilo, sabia fazer-se estimado e respeitado.
Dentre as pessoas gradas da cidade com que José Jeronymo mantinha relacionamento mais chegado recordo o Prof. Alziro Carvalho, antigo diretor do Colégio, e o Dr. Castellar Modesto Guimarães, promotor de justiça.
Em 1950 estávamos no internato José, Deodato e eu. Era um internato camarada. Como tínhamos bom aproveitamento escolar, davam-nos permissão para sair praticamente a semana toda, de modo que podíamos jogar nossa sinuca, tomar nossa cerveja e… namorar. O descobrimento do amor não podia deixar de se refletir na poesia, igualmente recém-descoberta, de Rivera. Quero ler uma dessas primícias, que bem reflete o halo românico em que nos movíamos, e cujas qualidades mostram o injustificável de ter o autor interrompido por décadas o exercício do verso:

VISÃO DE AMOR

Do firmamento no véu,
Em cada estrela do céu
Dos astros no resplendor –
No azul transparente e claro,
Zimbório precioso e raro,
 Em tudo te vejo, amor!
                   No despertar da manhã,
                   Quando a natura louçã,
                   Sentindo o morno calor
                   Do sol que nasce distante
                   Acorda, alegre e vibrante,
                   – Em tudo te vejo, amor!
Nas verdes ondas do mar,
Murmurando, sem parar,
Com leve e brando rumor,
Cantigas doces e belas
Aos barcos de brancas velas,
 Em tudo te vejo, amor!
                   Quando, em tarde merencórea,
                   Ouço de amores a história
                   Na voz de um meigo cantor
                   De volta ao ninho, arrulhando,
                   A companheira chamando,
                   – Em tudo te vejo, amor!
Na pétala perfumada
Da flor à beira da estrada
 Encanto do viajor
Que vai pela vida afora,
De dores a alma em pletora,
 Em tudo te vejo, amor!
                   Nas águas claras do rio,
                   Que em turbilhão ou num fio,
                   Em silêncio ou com fragor,
                   Vão correndo à luz do sol,
                   Saudando um novo arrebol,
                   – Em tudo te vejo, amor!
Da noite na paz tranqüila,
Enquanto o orvalho destila
Gotas na pét’la da flor,
E a lua deixa no rastro
Cintilações de alabastro,
 Em tudo te vejo, amor!
                   No esplendor da primavera,
                   Quando em luzes a tapera
                   É toda vida e calor,
                   E o coro da natureza
                   Entoa um hino à beleza,
                   – Em tudo te vejo, amor!
No marulhar da cascata,
Alegre chuva de prata
De imaculado lavor,

Fulgindo em festas ardentes

De brilho e espumas albentes,
 Em tudo te vejo, amor!
                   Enfim, em tudo que encerra
                   – No céu, no mar ou na terra ¾
                   A obra do Criador,
                   – Em tudo tu estás presente!
                   Em tudo est’alma te sente!
                   – Em tudo te vejo, amor!…
                  
Em 1951 sairíamos para uma pensão, em casa de D. Sirene, próximo do Colégio, José, Deodato, Luiz Henrique, Amaury e eu, indo juntar-se ao clã alguns mais moços.
Falei em bom aproveitamento escolar. No caso de Rivera, a expressão fica longe da realidade. Aproveitamento máximo tem melhor cabimento. Desde o primeiro instante ele se revelou aluno excepcional. Sua média final era 10, invariavelmente, em todas as matérias. No Colégio Leopoldinense só tinha havido um caso assim, protagonizado por uma moça. Eu, não conheço nenhum outro.
Já era, naquela época, leitor incansável. Nos primeiros tempos, no internato, ensaiaram apelidá-lo Jornaleiro, porque era visto sobraçando grossos jornais do Rio e de São Paulo, jornais que lia religiosamente, com particular interesse nos suplementos literários. Soube desde logo canalizar para a vida em comum o seu grande potencial intelectual, ao invés de usar apenas para passar de ano, e para gozo interno, essa extraordinária capacidade de ler, aprender e fruir. Entre maio e outubro de 1953, junto  com Deodato, figurando ele como diretor e o irmão como secretário, tirou sete números do Três de Junho, “órgão dos alunos do Colégio Leopoldinense”, nos quais acolheu múltipla contribuição, colaborando largamente ele mesmo com editoriais, poemas, crítica cinematográfica, notas literárias e políticas. Releio os primeiros versos que nele publicou (e em que já se nota a marca simbolista):

ESPECTROS

Nas asas virginais da Fantasia,
Entre nuvens de sonhos e desejos,
Ao som da magistral polifonia
De um festival de cores e de arpejos;
Vão passando, em fantástica harmonia,
Em meio a tempestades e lampejos,
As procissões do Amor e da Poesia
 Estranhos e patéticos cortejos

De ilusões, esperanças e quimeras,

Anseios de ternura incompreendida,
Farrapos de emoções da mocidade,
Lembranças de passadas primaveras,
Toda a existência humana resumida
Num cortejo de dor e de saudade…
A ida para Leopoldina fora inspirada aos dois irmãos pela experiência de um primo, Hermenegildo Villaça  – o Hermê – , com quem se reencontrariam em Brasília e que se tornaria, para mim, parte dessa irmandade adotiva. Villaça lá estivera alguns anos antes, mais para servir ao Exército no Tiro-de-Guerra 98 que por outros quaisquer motivos.
José Jeronymo Ribeiro Rivera – este o nome completo do nosso mais novo acadêmico¾ nasceu no Rio de Janeiro, no bairro de Vila Isabel. (Não nega a origem, amante que é da arte de Euterpe, desde a criada por Noel e companheiros de altitude em nossa melhor música popular, até os clássicos de todo gênero: Bach, Mozart, Beethoven, Schubert, Schumann, Tchaikovsky e Verdi puxando o coro.) É filho de Emílio Vello Rivera e Helena Pinto Ribeiro Rivera.
O avô paterno, Geronimo Vello Rivera, era natural de Covelo, província de Pontevedra, na Galiza, Espanha. Nascido em 1874, teria vindo muito jovem para o Brasil, como ajudante de padeiro. Aqui se casou com Raquel dos Santos Rivera, provavelmente originária da província de Trás-os-Montes, Portugal. (Consta que essa avó, antes da relativa prosperidade que viria a conquistar o casal, teria engomado as camisas de Bilac.) Geronimo Vello trabalhou sempre no ramo da panificação, chegando a sócio de vários estabelecimentos, um deles na Rua da Matriz, em Botafogo, onde nasceu Emílio. Fixou-se no Largo do Pechincha, em Jacarepaguá, onde fundou a Padaria Rivera, existente até hoje. Faleceu em 1939, seguido por Raquel sete anos mais tarde. Foi a herança desse avô padeiro e dessa avó engomadeira que possibilitou os estudos de José e Deodato.
O avô materno, José Pinto Ribeiro, médico, paulista, casou-se em Barra Mansa com Maria Ramos Pinto Ribeiro. Foi prefeito daquela cidade fluminense, onde há rua com seu nome, e deputado estadual. Ao se mudar, viúvo, para o Rio, levava três filhas: Helena, Adélia (que se tornou irmã de caridade e foi madrinha de batismo de Rivera, vindo a falecer com pouca idade) e Angelina, falecida em 2004, aos 95 anos.
Segunda interferência de Polímnia, ou augúrio de poesia, entre os ancestrais de Rivera: a menina Helena foi brindada com um poema por Luís Pistarini, amigo de seu pai. Desse poeta, em nosso tempo de estudantes, algo ainda se podia ler em uma que outra antologia. Seu nome vai submergindo na maré montante do oblívio. O poema, datado de Barra Mansa, 1916, é, pois, dirigido a uma garota de 11 anos. Vale a pena recolher esses versos singelos:

 

 

 À HELENA

            Encantadora Filhinha do Dr. Pinto Ribeiro

Helena… Angélica Helena

Tem um quê celestial…
É uma graciosa açucena,
É um casto lírio do val!
Que suave inocência bóia
Nos seus olhos virginais!
Sua homônima de Tróia
Nunca teve olhos iguais!
A boca fresca e mimosa,
Qual bipartida romã,
Recorda um botão de rosa
Pompeando ao sol da manhã…
Helena Pinto Ribeiro
Tem onze anos… Onze só,
E um rostinho feiticeiro…
Mas… nunca teve um coió!
Também pudera!Tão linda,

Mas, tão criança também!

Como flirtar quem ainda
Mal na vida entrando vem?
Não! disso não cuida a Helena,
Pois ela é a primeira a ver
Que, sendo assim tão pequena,
Tem mais coisas a fazer…
Por exemplo: ir ao colégio…
Pegar um livro… estudar…
Ah! seria um sacrilégio
Seu coração perturbar…
Deus a livre vigilante
Da moda que hoje aí vai…
Que por ora ¾  boa e amante ¾
Só pense no seu papai!
Que seja, das irmãzinhas
Junto, a melhor das irmãs,
Formando assim três gracinhas,
Três belas rosas louçãs!
Que de seu pai seja o orgulho,
Toda a casa a governar,
Dispondo, mas sem barulho,
As coisas no seu lugar!
E meiga, já substituindo
A santa que a deu à luz
E ora descansa, dormindo,
Calma, à sombra de uma cruz…
Aliás, para isso é preciso
Que Helena saiba fazer
De seu lar um paraíso,
E assim suavize o sofrer
Do homem bom que, só no mundo,
Só com elas três ficou,
E o golpe que, de tão fundo,
Não sei como não o matou!
Eis o que à Helena desejo
De todo o meu coração,
Deponho-lhe um casto beijo
Na linda e pequena mão!
Emílio e Helena casaram-se em Aparecida, na antiga basílica, em 21 de janeiro de 1932. Tiveram três filhos: José Jeronymo, nascido em 12 de junho de 1933; Deodato, em 8 de junho de 1935; e Raquel, que, nascida em 1936, mal passou dos três meses.
Emílio era comerciante, tendo mantido diversos negócios. Dentre suas atividades profissionais destaca-se a de sócio-gerente do laboratório cinematográfico Logograph, localizado em plena Cinelândia. Traduzia do alemão, em que era autodidata. Helena faleceu em Barbacena, em 1942, aos 37 anos. Emílio no Rio de Janeiro, em 1943, aos 34.
José expressaria a dor da orfandade precoce num soneto, em que julgo notar alguma reminiscência de Antero, um dos poetas que admirávamos e amávamos:
      MÃE

Quando, em meio à tristeza desta vida,

Eu me vejo sozinho e abandonado,
Sentindo o coração pulsar, cansado,
¾Mortas as ilusões, e a fé perdida;
Quando, ansioso, procuro no passado,
No Ideal que sonhei ¾  visão sentida,
Um consolo à minha alma dolorida
¾ Um pouco de carinho ao desgraçado,
Vejo um vulto celeste e silencioso
Chegar-se a mim, beijar-me a fronte exangue,
Banhando-me de luz e suavidade…
És tu, ó mãe querida, o anjo bondoso
Que me secas as lágrimas de sangue
A brotarem da fonte da saudade…
Os irmãos José e Deodato ficaram sob a guarda da avó Raquel e, falecida esta, dos pais de Hermenegildo, seus tios Alfredo Gomes Villaça e Sylvia Rivera Villaça. Estudaram como internos no Colégio de São Vicente de Paulo, onde se acha atualmente o Santuário da Medalha Milagrosa, no bairro da Tijuca. Seus estudos foram entrecortados por períodos de interrupção até a ida para Leopoldina, onde, além de reatá-los, prestaram o serviço militar.
Datam dessa época, aliás, as primeiras experiências enológicas do futuro Dr. Rivera, faturadas com o mais puro vinho das adegas vaticanas. Cabe aqui este parêntese bem-humorado para relatar que nosso novo acadêmico, antigo coroinha e congregado mariano, que hoje abriga suas dúvidas sob a capa do agnosticismo, escapou por pouco de ajudar um papa a rezar missa. Com efeito, o menino de 1942 acolitou diante do altar a D. Benedetto Aloisi Masella, Núncio Apostólico no Brasil, mais tarde camerlengo na Santa Sé e candidato (malogrado) ao trono de sumo pontífice. E andou provando, à sorrelfa, do seu delicioso vinho de missa.
Passemos a um interregno árido talvez, mas necessário, para dizer das atividades profissionais do escritor que nos honramos de receber.
De volta ao Rio, em 1954, José deu aulas particulares, passou onze dias como bancário, na Sulacap – Sul América Capitalização, trabalhou na Gráfica Riex e, aprovado em concurso do Dasp, foi nomeado oficial administrativo e lotado na Casa da Moeda, Ministério da Fazenda, em junho de 1955. No ano seguinte, transpôs o vestibular para a Escola Nacional de Engenharia. Terminou o curso em 1960. Não contente, formar-se-ia ainda em Administração de Empresas (1969) e em Economia (1979), pelo Ceub, e faria os seguintes cursos de especialização: Engenharia Econômica, Cepes, Brasília, 1972; Administração Profissional, DNER, Brasília, 1973; Project Appraisal, University of Strathclyde, Glasgow, 1977. Veio para Brasília em março de 1961, como Engenheiro Fiscal da Novacap. Exerceu, entre outras funções, as de chefe do Departamento Econômico (depois Terracap) e, em 1969/70, diretor-financeiro da Shis – Sociedade de Habitação de Interesse Social. Exerceu o magistério no Elefante Branco, tendo sido paraninfo da primeira turma do 2.º ciclo noturno. Em 1962 foi convidado a lecionar Física no Curso de Arquitetura da UnB, onde ficou até 1964. Nesse ano, passou a fazê-lo no Ciem, vinculado à UnB, licenciando-se em 1968. Lecionaria também no Ceub e na AEUDF (Administração da Produção e Planejamento). Nomeado, por concurso, Técnico de Tributação, mais tarde Auditor Fiscal do Tesouro Nacional. Serviu no Gabinete do Ministro da Fazenda de 1974 a 1979, e deste ano a 1985 no do Ministro do Planejamento. Voltou ao Ministério da Fazenda, donde, aposentado como Secretário da Receita Federal Adjunto, saiu para chefiar gabinete na Câmara dos Deputados, situação em que se encontra até hoje. É co-autor, ao lado de Frederico Máximo Vianna Barbeitas, Guenther Jung e Jupy Barros de Noronha, do livro Fontes de Recursos Federais para Estados e Municípios
Findo esse interregno, que em verdade só tem de árido o resumo dos fatos, riquíssimos, por minhas pobres palavras, passemos a outro, inequivocamente fecundo em flores e frutos. Jeronymo casa-se em 1962. A esposa, Naly Sá Roriz Rivera, advogada e professora, dá-lhe por prole cinco meninas: Helena Maria, Andréa Lúcia, Ana Luisa, Tania Cristina e Flávia. Como se não bastassem tantas mulheres, vieram quatro netinhas: Mayra, Fernanda, Anita e Isadora. Único varão nessa descendência, e penúltimo broto até agora, o menino Tiago.
Jeronymo e Naly, que se casaram no mesmo mês em que eu e Célia ¾nós no começo, eles no fim de junho¾, foram nossos padrinhos de casamento. Amigos fraternos, acabamos num compadrio duplo: eu e minha mulher somos padrinhos de sua filha caçula.
Como oferenda poética à afilhada ¾e, extensivamente, a toda a família¾ lavrei então estes versos:

SONETO PRECIOSO

PARA MINHA AFILHADA FLÁVIA

ou simplesmente

SONETO DE FLÁVIA

Flavinha — flâmea gema que cintila

livre de engaste, como a pura Idéia,
favo menor de quíntupla colméia,
fulva essência a agitar morena argila;
Flávia — de viva alfaia, fanopéia,
flama inquieta sem sombra de favila:
levem-te sempre à flor de água tranqüila
brandas brisas em fúlgida coréia.
E quando em pleno oceano, além da aurora,
nem vagas vejas, nem siroco aflante:
flavo favônio a afável mar se alie.
E assim, feliz, Flavinha, vida em fora,
sempre no amor dos teus —neste flamante
lar das cinco meninas— Deus te guie.
Em Leopoldina José JeronymoRivera faz a sua iniciação poética ativa. Em Leopoldina, exercitando-se no aprendizado de línguas, ensaiou as primeiras traduções, ainda literariamente desambiciosas. A vida toda, desde que se alfabetizou, tem sido um competente devorador de livros. (O adjetivo é cabível, pois há os que lêem não-seletivamente, há os que lêem apenas para matar o tempo, e há os que lêem sem assimilar.) Em Brasília, carreira profissional organizada, família constituída, tendo viajado por quase todos os cantos da Terra, com todo aquele cabedal de letras, com toda essa experiência de vida, descobriu o veio de ouro de sua realização poética: a tradução de poesia. Agrada-me pensar que tenho alguma responsabilidade nisso. Em 1976, traduziu-me um “Madrigal” para o inglês. Figura a tradução em Capital Poems, antologia publicada pela Thesaurus em 1989, e na Folha da ANE, tirada por José Maria Leitão em computador.² Em1987, com a filha Tania Cristina, passou para o francês “Invenção da Noite”,³ que assim ficou:
INVENTION DE LA NUIT
De ce silence et de cette ténèbre
j’édifie ma nuit
particulière et intransférible.
Il ne me faut pas d’inventer les étoiles,
elles s’éveillent et luisent d’elles mêmes.
Et à minuit une lune sombre
lève sa face d’argent à l’horizont
et verse dans mes yeux un pleur, un froid.
Verteu para o alemão o poeminha “Olhos”:4
AUGEN
Plötzlich finde ich
die gewaschte Schönheit  deinen Augen heraus.
       (Zwischen mir und den Schlaf
       du trägst eine Sonne in den Lippen
       und im Busen Venus.)
Deine Augen sind wie ein Himmel, daβ geregnet hat.
(Recentemente, já senhor de notável bagagem de tradução poética, transpôs esse mesmo poema para o grego moderno, que ora estuda. Devo renunciar a ler essa versão, pois para mim grego moderno é grego…)
Com poemas originais participou em duas obras coletivas: em Alma Gentil– Novos Sonetos de Amor, organização de Nilto Maciel,5 com “Refúgio”, “Depois…” e “Encantamento”; e na recente Antologia de Haicais Brasileiros, de Napoleão Valadares,6 com esta bela composição:
Serras, as cigarras
serram o ar primaveril.
Serragem? a chuva.
Com algumas traduções do francês entrou em Caliandra – Poesia em Brasília,7 em 1995.
Daí por diante, o tradutor não parou mais. E nos deu, nesta ordem: Poesia Francesa: Pequena Antologia Bilíngüe,8 sua estréia em obra individual, “já em odor de mestria”, conforme disse eu alhures (textos de apresentação assinados por Arino Peres, por João Carlos Taveira e por mim); Cidades Tentaculares, de Émile Verhaeren;9 Rimas, de Gustavo Adolfo Bécquer, com estudo introdutório de José Antonio Pérez Gutiérrez;10 Gaspard de la Nuit, poemas em prosa de Aloysius Bertrand, com prefácio de Xavier Placer (redigi as orelhas).11 Em colaboração com Fernando Mendes Vianna e comigo, assina as traduções de Poetas do Século de Ouro Espanhol, estudo introdutório de Manuel Morillo Caballero;12 Victor Hugo: Dois Séculos de Poesia13 e O Sátiro e Outros Poemas,14estudo introdutório de Mendes Vianna; comigo, com José Antonio Pérez, José Santiago Naud, Kori Bolivia, Manuel Graña Etcheverry, Rodolfo Alonso, Rumen Stoyanov e Ángel Crespo (in memoriam), Poetas Portugueses y Brasileños de los Simbolistas a los Modernistas (versão para o espanhol; organização do saudoso José Augusto Seabra);15 com José Augusto Seabra e comigo, Antologia Pessoal de Rodolfo Alonso;16 comigo, 25 Sonetos Descaradamente Eróticos, de José Antonio Pérez.17 Tem prontos para o prelo: em colaboração, uma coletânea de poetas ibero-americanos, a ser editada pela Associação de Adidos Culturais em Brasília; singularmente, La Voza Ti Debida, de Pedro Salinas. Mencione-se, enfim, sua colaboração em periódicos como o Boletim da ANE, a Revista de Poesia e Crítica, a Revista da Academia Brasiliense de Letras, Literatura e Poesia para Todos, e sua atividade de conferencista na Associação Nacional de Escritores.
Sua fortuna crítica arrola textos impressos de Adelto Gonçalves, Afonso Ligório Pires de Carvalho, Alexandre Machado, Álvaro Alves de Faria, Antonio Carlos Osorio, Antonio Olinto, Branca Bakaj, Fernando Py, Hildeberto Barbosa Filho, Manoel Hygino dos Santos, Mário Teles de Oliveira, Vili Santo Andersen, Wilson Martins, jornal Linguagem Viva, a par de comentários epistolares de Adelaide Petters Lessa, Alexei Bueno, Alphonsus de Guimaraens Filho, Aluízio Valle, António Campos, Antônio Houaiss, Carlos Alberto Abel, Carlos Nejar, Cleonice Berardinelli, Dalila Pereira da Costa, Enéas Athanázio, Fausto Cunha, Gerson Valle, Ivan Junqueira, Ivo Barroso, José Mindlin, José Paulo Paes, Luciana Stegagno Picchio, Nilto Maciel, Oiliam José, Reynaldo Valinho Alvarez, Whisner Fraga, Yone Rodrigues. Figura no Dicionário de Escritores de Brasília, de Napoleão Valadares,18 e em Sob o Signo da Poesia: Literatura em Brasília, de minha autoria.19
Recebeu em 2001 o Prêmio Joaquim Norberto de Tradução, da União Brasileira de Escritores – RJ, por Poetas do Século de Ouro Espanhol, e em 2002 o Prêmio Cecília Meireles de Tradução, da mesma entidade, pelas Rimas de Bécquer.
Sendo a tradução de poesia o campo em que particularmente se notabiliza o seu labor literário, não posso terminar esta oração sem recordar-lhes um exemplo maior, tirado de Poesia Francesa: Pequena Antologia Bilíngüe. Leiamos a sua belíssima versão do belíssimo soneto “Recueillement”, de Charles Baudelaire:
  RECOLHIMENTO
Sê sábia, ó minha Dor, e fica sossegada.
Tu querias a Tarde, ei-la: já ao casario
Se abraça uma atmosfera envolvente e velada,
A alguns trazendo a paz, aos outros desvario.
Enquanto dos mortais a sórdida manada,
Escrava do Prazer, esse verdugo frio,
Vai colher o remorso em festa degradada,
Minha Dor, dá-me a mão, vem comigo, eu te guio
Para longe daqui. Vem ver como pendeu
O Tempo, em veste anciã, sobre os balcões do céu;
Subiu da água profunda o Pesar sorridente;
O Sol, já moribundo, escondeu-se e descansa,
E, qual longo sudário a se arrastar no Oriente,
Escuta, amiga, escuta: a doce Noite avança…
É esse, em tosco debuxo, o poeta e tradutor que passa a enriquecer a Academia de Letras do Brasil, na Cadeira n.º XXII, de que é patrono Antônio de Alcântara Machado, objeto de seu substancioso discurso de posse. Recebemo-lo de braços abertos, pelos seus méritos de escritor, nacionalmente reconhecidos, e realçados por suas altas qualidades humanas.
Bem-vindo a esta Casa, José Jeronymo Rivera.
NOTAS
1.                      Codesul, Curitiba, 1987.
2.                      Número de agosto de 1992.
3.                      Folha da ANE, julho de 1992.
4.                      Ib., novembro de 1992.
5.                      Códice, Brasília, 1994.
6.                      André Quicé, Brasília, 2003.
7.                      André Quicé, Brasília, 1995.
8.                      Thesaurus, Brasília, 1998; 2.ª ed. no prelo.
9.                      Id., 1999.
10.                  Embaixada da Espanha / Thesaurus, Brasília, 2001.
11.                  FAC – Fundo da Arte e da Cultura, Secretaria de Cultura do DF / Thesaurus, 2003.
12.                  Embaixada da Espanha / Thesaurus, Brasília, 2000.
13.                  Thesaurus, Brasília, 2002.
14.                  Edições Galo Branco, Rio de Janeiro, 2002.
15.                  Instituto Camões / Embaixada de Portugal na Argentina / Thesaurus, 2002.
16.                  Thesaurus, Brasília, 2003.
17.                  Círculo de Estudos Clássicos de Brasília, 2003.
18.                  André Quicé, Brasília, 1994; 2.ª ed. 2003.
19.                  Thesaurus, Brasília, 2003.
B6/18VI4

Uma explosão controlada

Anderson Braga Horta
In: Criadores de Mantras; Ensaios e Conferências.
Thesaurus, Brasília, 2007.
A meus mestres e condiscípulos de Leopoldina

Fui cedo iniciado nos mistérios da quarta dimensão que é o universo maravilhoso da palavra escrita. E nesse universo transtemporal e transmaterial aprendi a habitar simultaneamente mundos paralelos e a ser antípoda de mim mesmo. Para o menino imaginativo, cada livro era uma aventura; tornei-me um aventureiro insaciável. Naturalmente, muitas foram as leituras marcantes dessa fase: certa página de Humberto de Campos, um poema de Vicente de Carvalho, quilos de histórias em quadrinhos, romances, um ou dois filósofos abstrusos; mas, acima de todas, a obra infantil de Monteiro Lobato. Não pretendo me deter, contudo, nessas primeiríssimas e, de certo modo, passivas explorações literárias; quero antes falar de um dos livros que mais fortemente me ajudaram a estruturar uma experiência então nova para mim: a do fazer poético.
Anacronismo Fecundo
Trata-se de um dos mais antigos livros que conservo: data de 1951 adedicatória que lhe apôs meu Pai. Não foi a primeira influência. Poetas inaugurais foram-me —além de meus próprios Pais— os representantes maiores de nossas gerações românticas, Castro Alves à frente. (Sobre estes, escrevi já um ou dois depoimentos.) Também não foi a última. Seguiram-se-lhe Alphonsus, Cruz e Sousa, Augusto dos Anjos (acerca dos quais tenho também escrito algo), sem falar no Camões, no Antero, no Guerra Junqueiro; e, num segundo momento de minha formação, os modernistas – Bandeira, Menotti, Drummond, Jorge de Lima, Cecília, Henriqueta. E Pessoa. Antes e depois dele, em suma, arrolaria ainda um bom número de antigos e modernos, clássicos e românticos, gregos e troianos (especialmente se portugueses ou brasileiros…). Elementos, todos eles, do meu caos particular (“que um dia, quem sabe, organizarei em águas, terras e céus” — atrevo-me a esperar, num poema de Cronoscópio).
O livro a que tenho me referido é uma amarelada brochura editada em 1949 (23.ª ed.) pela Francisco Alves: Poesias, de Olavo Bilac.
Alguém há de pensar, e talvez dizer, que Bilac, mais Castro Alves, enfim românticos, parnasianos, simbolistas e outras antiguidades —como influência literária— é dose excessiva de anacronismo para os anos cinqüenta, na culta cidade de Leopoldina, vizinha da verde Cataguases. Peço licença para discordar. Para mim, pessoalmente, essa formação tradicional (bastante mineira, penso eu, e com isto não reduzo o “espírito de Minas” a um obscuro conservantismo; ao contrário, tenho em mente o lastro que orienta o vôo livre de pássaros que se chamem Henriqueta Lisboa, Murilo Mendes, Carlos Drummond de Andrade), essa formação foi um longo e amoroso aprendizado. Era um mundo organizado, tudo no seu lugar; um mundo medido, comedido, de que proclamo saudade noutro poema do Cronoscópio (“Auto-Elegia”), bem como num soneto de Incomunicação (“Naquele Tempo”) de que transcrevo o terceto final:
“Perdi o ritmo dos poetas antigos,
perdi a música dos poetas antigos,
hoje sou duro e seco e sem romantismo.”;
não este caos em que estamos mergulhados (caos, todavia, de que sairá um cosmos, “um ordenado universo” — ouso novamente augurar, na citada “Auto-Elegia”). Não um mundo a que devêssemos pretender retornar, isso não; mas um mundo de onde podemos talvez trazer algum instrumento que nos oriente neste caos, nos ajude a compreendê-lo e, afinal, transcendê-lo, na construção de uma terceira e mais alta realidade.
Paixão e Rigor
Como disse, Castro Alves está no limiar de minha experiência poética. À semelhança de seu verbo genial procurei persistentemente plasmar-me, sob o influxo daquela exaltação generosa e brilhante. À sua lição de exuberância veio contrapor Bilac uma lição de rigor. (Não que faltasse ao romântico o senso de composição, ou ao segundo servisse a carapuça de mármore genericamente talhada para os “parnasianos”. Apenas extremo, em um e outro, características maiores.)
Ardente mas contida emoção. Exaltação e rigor, rigorosa paixão. Caos e cosmos. Acho que está aí o segredo de toda grande poesia, de toda grande arte. Bilac foi um de meus mestres nisto, que aprendi ao menos teoricamente: “A poesia é uma explosão controlada.” (Seja-me perdoada mais esta autocitação.)
Vê-se logo que não me refiro ao Bilac da “Profissão de Fé”, nem ao das Panóplias, ainda excessivamente canônico, mas ao lírico, ao amoroso, ao erótico sem “apelações” de Via-Láctea, Sarças de Fogoe Alma Inquieta, ao épico d’O Caçador de Esmeraldas, ao contemplativo de Tarde.
A “Profissão de Fé” é um hino de amor à Forma, ao “Estylo”. O soneto “A um Poeta” (Tarde) é uma conclamação ao trabalho beneditino, paciente, solitário, perseverante, incansável, a fim de que
“Não se mostre na fábrica o suplício
Do mestre. E, natural, o efeito agrade,
Sem lembrar os andaimes do edifício:
Porque a Beleza, gêmea da Verdade,
Arte pura, inimiga do artifício,
É a força e a graça na simplicidade.”
Ambos os poemas se prestam excelentemente à ilustração do ideário parnasiano. Exemplificam bem o rigor formal, a ascese do poeta. Onde, porém, consegue o equilíbrio entre as forças polares aqui chamadas paixão e rigor é em poemas como O Caçador de Esmeraldas, cuja exaltação verbal muito o aproxima do grande romântico; no soneto a Bocage (“mestre querido”), canto de fidelidade à poesia e à língua portuguesa (também vigorosamente celebrada no soneto deste título); nos demais sonetos da Via-Láctea, destacadamente o famosíssimo n.º XIII — “Ora (direis) ouvir estrelas!” e o n.º XXIX — “Por tanto tempo, desvairado e aflito”, de minha predileção; em “A Avenida das Lágrimas”, de linguagem e efusão também românticas; e em inúmeras outras composições, muitas das quais vou arrolando aqui, para lembrar o volume dos poemas de nível excepcional deixados pelo velho Bilac: “O Julgamento de Frinéia”, “Súplica”, “Beijo Eterno”, “Pomba e Chacal”, “Nel Mezzo del Camin…”, “Inania Verba, “Virgens Mortas” , “Tercetos”, “In Extremis”, “Dentro da Noite”, “Campo Santo”, “Hino à Tarde”, “O Vale”, “As Estrelas”, “As Ondas”, “Microcosmo”, “Ressurreição”, “Benedicite!”, “Respostas na Sombra”, “Natal”, “Fogo-Fátuo”, “Perfeição”, “Um Beijo”; “Criação”, “Semper Impendet”, “Assombração”, “Diamante Negro”, “O Cometa”, “Diálogo”, “Avatara”, “Oração a Cibele”, “Sinfonia”.
No Limiar do Mistério
A quando e quando, rende-se o poeta à magia da aliterante música simbolista, como neste terceto magistral de “A Tentação de Xenócrates”:
“Tíbios flautins finíssimos gritavam;
E, as curvas harpas de ouro acompanhando,
Crótalos claros de metal cantavam…”
Notas simbolistas creio ver, por exemplo, em “Surdina” (Alma Inquieta) e em mais de um dos intensos sonetos de que está referta a Tarde do poeta. Cito a “Cantilena”, em versos de quatorze sílabas, e os alexandrinos de “Vila Rica” e “Os Sinos” (belíssimos).
Lembra-nos, finalmente, o clima simbolista a sensação de umbral que nos transmitem alguns dos sonetos mais altos da fase derradeira. Escolho para representá-la este magnífico “Introibo!”:
“Sinto às vezes, à noite, o invisível cortejo
De outras vidas, num caos de clarões e gemidos:
Vago tropel, voejar confuso, hálito e beijo
De causas sem figura e seres escondidos…
Miserável, percebo, em tortura e desejo,
Um perfume, um sabor, um tato incompreendidos,
E vozes que não ouço, e cores que não vejo,
Um mundo superior aos meus cinco sentidos.
Ardo, aspiro, por ver, por saber, longe, acima,
Fora de mim, além da dúvida e do espanto!
E na sideração, que, um dia, me redima,
Liberto flutuarei, feliz, no seio etéreo,
E, ó Morte, rolarei no teu piedoso manto,
Para o deslumbramento augusto do mistério!”
Concluindo, confesso que as Poesias de Bilac foram-me, em fundo e forma —como, à outra mão, o estro de Castro Alves—, uma das mais vívidas revelações e uma exigente escola, que reconheço e proclamo, e que —associada sempre à lembrança de Leopoldina, estrada de Damasco da minha poesia— me é grato agora recordar e reviver.

Oficina de Declamação

Sob a orientação das acadêmicas Begma Tavares e Glaucia Costa, no dia 24 de outubro foi realizada uma Oficina de Declamação no Museu Espaço dos Anjos.

Muitos participantes eram alunos da professora Ana Cristina Miranda Fajardo, da Escola Estatual Justiniano da Fonseca, do distrito de Tebas. Tivemos também a presença de alunos do Centro Educacional Conhecer, localizado na Rua Dom Aristides. Outras instituições educacionais estiveram representadas, como o Conservatório Lia Salgado e a Escola Municipal Judith Lintz. Além disso, outros jovens participaram das atividades, ao lado de conhecidos poetas como Rodrigo Ladeira, Viliam de Oliveira, Ana Paula Torquato e Fabrício Manca.

Deodato Rivera: poesia, morte e ressurreição

Anderson Braga Horta
In: Sob o Signo da Poesia: Literatura em Brasília.
Thesaurus / FAC, Brasília, 2003.

Nascemos muitas vezes. Há o nascimento biológico, o único certificado como tal pelos cartórios; mas há outros e outros, alguns mais intensos que o primeiro, já porque desses nos possamos lembrar, já por iniciarem-nos em vivências que, pertinentes à globalidade da vida, parecem maiores que esta, mais férvidas, mais densas, mais vibrantes. Na mineira cidade de Leopoldina tive o privilégio de nascer —juntamente com Deodato Rivera e mais uns poucos jovens inexpertos e ansiosos— para alguns aspectos novos e excitantes da vida. Para aqueles que se nos desvelam com a adolescência. E para a Poesia.

Preciso resistir ao impulso de falar de cada um dos amigos e companheiros de então. A lembrança deles encheria páginas calorosas de um livro de memórias; mas devo conter-me nos limites de uma apresentação — a do poeta Deodato Rivera, que vi nascer, que nasceu comigo, e com quem comungo na irmandade da Poesia. E da Amizade.

 Em Leopoldina, naquele ano remoto e santo de 1950, encontramo-nos, não só no sentido social, mas no sentido espiritual da palavra, um grupo de adolescentes que nos faríamos amigos fraternos, para além das circunstâncias de tempo e espaço. Desse grupo, os que haveria de aproximar, em breve, também a Poesia éramos eu, Deodato e seu irmão, José Jeronymo, Hélcio Campomizzi e, logo, José Herberto Dias. Hélcio —irmão de Campomizzi Filho, que se tornaria crítico literário— cursou o caminho da Odontologia e, em seguida, o da Medicina, deixando para trás a tentação do Poema. Morreu de repente, do coração. Está presente neste livro, num de seus poemas confessionais, memorialísticos, elegíacos, o “Chapeuzinho Vermelho” (de apelido que lhe botamos, nem sei bem já por quê); mas está presente sobretudo em nós, como o lembra Deodato numa carta em verso de 1976 (uma carta em verso, sim! que ainda então, no longo desterro, era capaz desse romantismo o Poeta, como era, em seus tempos ubaense-leopoldinenses, o próprio Hélcio). Diz o missivista, referindo-se à perspectiva de volta à Pátria (para o que, entretanto, ainda teria de esperar uns quatro anos):

     Para que dizer-te a dor de já saber
      que o nosso Campomizzi não virá
      ao certo bota-dentro já mais perto?
      Assim nos quer o fado, mas vençamos
      a dor com o sentimento da presença
      do amigo amado em nós jamais mortal.

Mas avancei demais. Voltemos a Minas. Em 1953, já iniciados, todos nós, nos primeiros mistérios poéticos (e noutros, paralelos, mais gozosos, talvez, mas também, com certeza, infinitamente mais pungitivos), reunimos nossas penas no Três de Junho, “órgão dos alunos do Colégio Leopoldinense”, obra de Jeronymo e Deodato, respectivamente diretor e secretário, prestigiada por Monsenhor Guilherme de Oliveira, que dirigia o Colégio. Os dois irmãos colaboraram profusamente em prosa e verso. Outro tanto se diga de Gustavo Monteiro de Castro Júnior, desaparecido, como Campomizzi, antes de madura a hora. Do grupo, compareceram ainda Hélcio e Herberto, com uma prosa cada um, nos sete números, tirados todos naquele mesmo ano.

José Jeronymo Rivera —aluno excepcional, que passava com média final 10 em todas as matérias— exibia uma grave e forte vocação poética, cedo e injustificavelmente abandonada. Transcrevo-lhe um soneto (que diria de filiação anteriana) impresso no n.º 2, de 20 de maio:

                                                           MÃE

                                                                                              José Jeronymo Rivera

                                               Quando, em meio à tristeza desta vida,

                                               Eu me vejo sozinho e abandonado,

                                               Sentindo o coração pulsar cansado,

                                               — Mortas as ilusões, e a fé perdida;

                                               Quando, ansioso, procuro no passado,

                                               No ideal que sonhei — visão sentida,

                                               Um consolo à minha alma dolorida

                                               — Um pouco de carinho ao desgraçado,

                                               Vejo um vulto celeste e silencioso

                                               Chegar-se a mim, beijar-me a fronte exangue,

                                               Banhando-me de luz e suavidade…

                                               És tu, ó mãe querida, o anjo bondoso

                                               Que me secas as lágrimas de sangue

                                               A brotarem da fonte da saudade…

Deodato era também dos melhores alunos, embora sem a rigorosa performance do mano. Os primeiros versos que publicou no Três de Junho revelam o jovem já voltado para uma poesia pensamental, social. Do n.º 1, datado de 5 de maio:

     RESSURREIÇÃO

(Paráfrase de Bécquer)

Na tosca sala jaz emudecida

A velha harpa, majestosa outrora,

Que hoje, no pó dos anos esquecida,

Relembra, triste, o seu passado e chora…

E nela quantas notas dormem, quantos

Suaves sons lhe morrem ressentidos

Da longa ausência de u’a mão que cantos

Lhe venha haurir de lábios ressequidos!

E quanto gênio, eu penso então, no fundo

Das almas dorme, por não ter no mundo

A mão que o tire do marasmo atroz;

A voz que o faça, Lázaro, da campa

Sair sorrindo, em lhe afastando a tampa,

Ressuscitado, ouvindo Aquela voz!…

Perdoem-me os amigos que eu lhes exiba assim essas primícias. Se defeitos tiverem, — são primícias. E suas qualidades são patentes.

No n.º 5, de 20 de agosto, estrearia a tendência social numa tentativa de verso livre, o “Poema Utópico”, de que extraio a conclusão:

Se todos os homens fossem fortes de caráter,

se todos fossem sábios,

se todos fossem bons,

então não haveria guerra, revoluções, conflitos.

Então os exércitos seriam desnecessários,

e os homens, felizes.

Então, o Mundo teria ganho a paz.

O último número (e aqui me lembra o famoso soneto de Augusto dos Anjos, de que a terra leopoldinense abriga os ossos…), de 25 de outubro, trará um poema filosófico, já em forma sensivelmente evoluída:

POEMA DO HOMEM SIMPLES

Olhai-o bem: aquele é o homem simples…

Reparai como segue a passos leves

com a leveza de sua consciência…

Anotai o seu ar despreocupado,

como quem não se importa com o futuro,

como quem do passado não se lembra.

Ele vive somente do que apalpam

suas mãos,

do que vêem seus olhos,

percebem seus sentidos.

O presente que vive é sua vida;

o passado são luzes apagadas,

o futuro uma porta ainda fechada

que se lhe há de abrir…

Olhai-o bem: aquele é o homem simples…

Seus ideais de amor coloca-os perto,

onde possa alcançá-los, e, feliz,

sorri dos versos tristes do poeta

incompreendido;

não povoam suas noites pesadelos;

seu amor se assemelha às águas mansas

de um lago sossegado,

onde a lua, boêmia das alturas,

vem se mirar como donzela ao espelho;

seu amor, como as águas desse lago,

é quieto e silencioso, humilde e bom;

sua história é a mais simples das histórias,

sua vida, sem louros e sem glórias,

é a vida de muitos neste mundo…

Olhai-o bem: aquele é o homem simples…

As transcrições mostram a coerência da trajetória vital de Deodato Rivera: a seriedade no estudo; a diversificação das leituras; a preocupação ética, acima, a meu ver, da estética. No jovem, já o homem. Falta apenas, ao quadro, a nota lírica. Para completá-lo, nada melhor que este belo soneto:
Volto ao convívio de tuas cartas… Leio

linha por linha, devagar, buscando

achar de novo a sensação que veio

quando, uma a uma, vinham-me chegando.

São mil ternuras, frases carinhosas,

abraços, sonhos, confissões, desejos…

(Esse perfume bom de puras rosas

lembra o perfume dos teus puros beijos…)

E descobrindo vou, maravilhado,

que tem diverso significado

cada sinal, cada palavra, tudo:

aqui, no ponto, houve um suspiro mudo…

Houve um sorriso, ali, naquele traço…

Quer dizer beijo este “saudoso abraço”…

Pronto. Estão aí os traços fundamentais do retrato do Poeta. E do ser humano que é Deodato Rivera. O mais —insonegável, é certo— é desdobramento previsível, seqüência, conseqüência. A partida fôra dada.

Assim como nascemos e renascemos, também morremos vezes várias, no curso de nossa vida terrena. Já ambos no Rio de Janeiro, Deodato e eu retomamos as paralelas de nosso trajeto: trabalhamos juntos na mesma companhia de seguros, fizemos o mesmo concurso para a Câmara dos Deputados, passando em colocações contíguas. Em breve, porém, as paralelas de novo se afastariam, dessa vez de maneira mais radical, e por longuíssimos anos. Deodato revelava desde cedo insopitável vocação sacerdotal, isto é, a necessidade de entrega a uma causa; causa que fosse a um tempo filosófica e humanitária, que outro caminho não comportaria as dimensões de sua formação e de seu temperamento. (Nesse caminho, negligenciou a Poesia.) Passada a euforia do governo JK, da construção de Brasília, vieram os problemas, e veio 1964, inaugurando o anticlímax trevoso da Redentora. Nosso agitador foi demitido por abandono de cargo, não obstante o parecer da comissão administrativa, que viu justa razão para sua ausência. Perseguido, refugiou-se na embaixada da Iugoslávia, onde ainda pudemos visitá-lo eu, seu irmão e amigos. Começava a longa morte do exílio.

Em terras estrangeiras, contudo, pôde o homem retemperar-se. Conheceu novos climas, novos costumes, outras culturas; estudou, lecionou; reviveu, enfim. E, passada uma década de andanças, ocorreu a ressurreição do poeta. Para que ele próprio o relate, transcrevo parcialmente carta que me enviou de Les Ulis, França, datada de 4 de agosto de 1979:

     Não lhes falei nada do livrão porque queria fazer surpresa. Agora que já sabem posso esticar-me um pouco. Juntei toda a obra poética desse “renascimento” de há cinco anos em dez livros bem marcados, e o resto que está em inglês talvez se organize num último livro cujo título já escolhi: Songs of Love and Peace. Dos dez nove são em português, e constituíram o livrão chamado Diaspoerança. O décimo, que consta de 12 poemas em espanhol, chama-se Canto a Chile en Sangre, do qual lhe estou enviando uma amostra tomada ao azar, não sendo o que mais aprecio. Condensa algo da experiência desse segundo exílio (o poema, não o livro todo que é produto da grande tragédia social e humana que nos foi dado assistir, infelizmente). Gosto demais desse décimo livro, apesar de mais panfletário e talvez mais ingênuo e otimista, apesar de tudo, que os outros. Mas como, segundo penso, foi ele — ou melhor, sua motivação, a náusea do banho de sangue fascista, o terror, a angústia por amigos, conhecidos, povo que admirávamos — que determinou o “renascimento” poético, a angustiada busca das raízes para reencontrar o desejo de vida e de amor quando a morte escandalosa e cruel de milhares de inocentes te fazem duvidar de tudo e até de ti mesmo, perdôo-lhe a natureza talvez menos poética e propositadamente didática de que imagino o bardo de Lajinha não gostará. (Se tudo correr bem mandarei cópia breve, depende de encontrar uma máquina copiadora amiga, pois os fundos de difusão estão a zero.)

      Diaspoerançaé uma história complicada, assim uma espécie de vários poetas num só, apenas que com o mesmo nome para não imitar o nosso Pessoa. Na verdade há de tudo em temática, tonalidade, se me entende, e estilo. O que me animou a reunir tudo foi a opinião dos amigos a quem os poemas despretensiosos agradavam, como vocês aí em Brasília e algumas aves de passo que estimulavam a publicação. Quando classifiquei tudo por data percebi que a ordem temática saía por si mesma, havia uma clara evolução ou processo de transformação (não necessariamente para melhor, no caso cada “fase” correspondeu a uma importante etapa numa espécie de catarsis e redescoberta interior para libertar os fantasmas reprimidos há 4 décadas quase, melhor, ao longo de, pois aos primários agregaram-se alguns secundários duros de roer…). E olha o livrão pronto sozinho! Não deu outro trabalho que fazer uma dedicatória, um poema que se chama “Para Alice”, bolar o título-síntese e pronto.
Na linha seguinte, dir-se-ia “ligeiramente desconfiado de que o poeta morreu”… de novo! Mas isso já não me preocupou; já sabia, então, que a vida é feita de mortes e ressurreições; e o poeta nunca morre de todo.

E o livro aqui está, enfim; com aproximadamente a mesma estrutura e os mesmos poemas, mudado o título.

Voltaria o amigo a escrever-me em 12 de setembro. Preparava-se para o regresso, que se daria no ano seguinte. Da emoção dessas vésperas dizem uns tercetos e um soneto que me enviou nessa carta; transcrevo-os, pois não foram incluídos no livro. Primeiro os tercetos:

                                               PASSAPORTAGEM

                                               O poeta a que sai?

                                               Em Paris buscar vai

                                               Documento feliz.

                                               O poeta o que tem?

                                               Tem saudades, no trem,

                                               De um longínquo país…

                                               O poeta o que quer?

                                               Quer gritar, chorar quer.

                                               Mas coragem, quem diz?

                                               O poeta o que faz?

                                               Faz de conta que em paz

                                               Vai de trem a Paris…

Agora o soneto (branco), em que sobressai a beleza do verso final:

  BRASIL
Amava-te e deixei-te por amor,

E mais amor nasceu no longo exílio.

Maior fora essa funda provação,

Maior amor trouxera-te oferente.

O lábaro que ostentas estrelado

Nas asas da saudade me seguia

E em mim mesmo brilhava, não perdido,

Porque comigo erravas pelo mundo.

Venci contigo míticos fantasmas,

Dragões imaginários derrotei,

Saltei barreiras e evitei escolhos.

E em noites de amargura, se chorava,

Consolo me trazias, pois sentia

Teus rios a escorrerem-me dos olhos…

Deodato Rivera, o homem e o poeta, está, pois, entre nós. A entranhada vocação sacerdotal a que aludi, ele a dirige, hoje, à causa da criança — que se confunde, a bem dizer, com a causa nacional.

Deixo nestas linhas, repito, apenas esboçados os traços essenciais do poeta e do homem. Há de sem dúvida ampliá-los e aprofundá-los a leitura e fruição dos poemas.

(1994)

Rememorando o evento do dia 17 de outubro de 2014

No dia 17 de outubro a ALLA recebeu um grupo de poetas de Juiz de Fora, dando início às Homenagens pelo centenário de morte de Augusto dos Anjos com uma visita ao túmulo do poeta. Em seguida, uma visita à Praça Dom Helvécio, onde os visitantes puderam admirar a majestosa construção da Catedral de São Sebastião e seguimos para a Casa de Leitura Lya Maria Müller Botelho, sendo recebidos pelo coordenar Alexandre Moreira.


Mais tarde os escritores de Juiz de Fora fizeram uma visita guiada ao Museu Espaço dos Anjos e, no Anfiteatro Luiz Raphael Domingues Rosa, aconteceu a palestra de Daura Rocha e o Sarau, aberto com palavras do presidente da Academia Leopoldinense de Letras e Artes. 


Trechos da fala do Dr. Ronaldo Alvim Barbosa.

Farei uma homenagem aos poetas e comentários para os não poetas… Como eu. Cecília Meireles escreveu:

 “Eu canto porque o instante existe
 e a minha vida está completa.
 Não sou alegre nem sou triste:
 sou poeta”.

Em meio à nossa rotina fatigada, que tempo temos reservado para o canto dos poetas? Quando foi a última vez que cantamos por sentir o instante presente e a nossa vida completa? Alguma vez conseguimos superar a dualidade da alegria e da tristeza, e ver o mundo com as lentes da poesia? O que sabemos sobre o olhar generoso dos poetas?
Cecília Meireles tinha 63 anos quando nos deixou, no ano de 1964. Passados 50 anos, onde estará agora nossa querida poeta?
[…]
Manoel Bandeira nos presenteou:

“Vou-me embora pra Pasárgada
 Lá sou amigo do rei
 Lá tenho a mulher que eu quero
 na cama que escolherei”.

O querido poeta abordou em seus poemas temas que lhes eram caros. A família, a morte, a infância em Recife, os indivíduos que compõem as camadas mais baixas da sociedade, os excluídos. Deixou uma poesia pessoal, atenta aos valores universais, capaz de mesclar melancolia e nostalgia com ironia e humor. Ele soube usar a força do sentimento e a tensão do espírito, a reflexão metafísica sobre a vida e a morte, evocadas pela combinação de palavras.
O mais lírico dos nossos poetas, faleceu no dia 13 de outubro de 1968, aos 82 anos. Passados quase 50 anos, onde estará agora o nosso querido poeta?
[…]
Para nós, os não poetas.
Precisamos refletir sobre a fragilidade e a efemeridade desta jornada terrena. É preciso ter ouvidos para os versos de Cecília, Bandeira e todos os queridos poetas, incluindo os aqui presentes. Precisamos ter olhos para as nuvens, as flores, e o sorriso das crianças. Permanecermos despertos, vivendo em plenitude o aqui e agora. Sem encanto e poesia, a vida, refém de relógios e calendários, não passa de uma luta insana. Constante atenção nos é exigida para que possamos alcançar a nossa Pasárgada, a nossa Bem-aventurança. Estender a mão, avançar com um coração aberto, procurar deixar o mundo um pouco mais belo a cada dia. Longa, árdua, e por vezes solitária é a caminhada rumo à Bem-aventurança. No entanto, é a única trilha que vale a pena ser percorrida.

O Espiritualismo de Augusto dos Anjos

Anderson Braga Horta
[In: Criadores de Mantras; Ensaios e Conferências.
Thesaurus, Brasília, 2007.]
Jamais pude ver em Augusto dos Anjos um poeta materialista, na corrente acepção da palavra, que exclui a sobrevivência de um princípio pessoal, post mortem. Antes vejo nele o homem que reconhece a unicidade da Criação, apesar das perplexidades e revoltas, e aparentes descaídas maniqueístas – de que nos oferece duvidoso testemunho o soneto “Vítima do Dualismo”. Pois o seu monismo evolucionista não deve ser tomado por vesgo, unilateral: nele inclui-se, como contraface, um espiritualismo1decerto não ortodoxo, e não sistematizado. Sua filosofia abrange espírito e matéria, integradamente, aspectos ou estados que são da “substância universal” única. A amargura, o pessimismo, a brutalidade da sua poesia têm raízes não na espécie de niilismo que o poeta às vezes aparenta, mas na sua condição de filho de uma aristocracia rural falida; de intelectual desarmado para a vida prática, em que a mediocridade reiteradamente triunfa sobre a inteligência pura; de homem fisicamente débil e de psicologia conturbada, com antecedentes patológicos na família, segundo a informação de Francisco de Assis Barbosa nas “Notas Biográficas” apensas à 30.ª edição do Eu.2Essa amargura, esse pessimismo, essa rudeza refletem-lhe a revolta contra a grosseria da vida em suas manifestações, contra a preponderância do aspecto material sobre o espiritual, contra a fatalidade da dor.
O espiritualismo apresenta-se-lhe filtrado e vigiado por uma poderosa, ciosa mente lógica. Esta, embora limitada, aponta para além de sua limitação. É um círculo cujos raios olham para fora, mas não sabe como se abrir. Em outras palavras, pode ela “adivinhar” o transcendente, mas não captá-lo, vivê-lo. Eis o drama do intelecto, atingir os próprios limites. Parece que o poeta não logrou desenredar-se inteiramente. Terá contribuído para tanto a sua pouca vida, pois morreu aos trinta anos, antes da plena maturidade. “Parece”, digo, por causa de sua quase onipresente revolta.
Tudo isso há de ser rastreado nos poemas. Vamos aos indícios e às evidências de seus versos, quanto possível, em “generalidade decrescente”.
O poeta invoca o nome de Deus em “As Cismas do Destino”, “Sonho de um Monista”, “A um Carneiro Morto”, “Os Doentes”, “A Meu Pai Doente”, “A Árvore da Serra”, “Noite de um Visionário”, “A Ilha de Cipango”, “Poema Negro”, “Barcarola”, “Ultima Visio”, “Viagem de um Vencido”, “Vox Victimæ” (como “Creador”).3 Não sobrecarregarei a enumeração com referência aos “Poemas Esquecidos” – onde, aliás, poucas notas antecipam as culminâncias a que subiria o poeta.
É verdade que a freqüência do nome Deuspoderia, em princípio, atribuir-se a um fator meramente cultural, tanto mais que Augusto nascera em berço cristão. Mas há, quanto a isso, dois pontos positivos para nossa tese:
1) Só uma vez tal nome vem grafado com inicial minúscula, e é na décima primeira estrofe da parte VIII de “Os Doentes”:
“Eu maldizia o deus de mãos nefandas
Que, transgredindo a egualitária regra
Da Natureza, atira a raça negra
Ao contubérnio diário das quitandas!”
Aqui, a palavra “deus” não se refere ao “Criador”; mas no mesmo poema já aparecera com maiúscula – na primeira estrofe da parte II:
“Minha angústia feroz não tinha nome.
Ali, na urbe natal do Desconsolo,
Eu tinha de comer o último bolo
Que Deus fazia para a minha fome!”
Afigura-se-me significativa a distinção feita pelo autor (e confirmada pelo confronto com edição anterior).4
2) Algumas vezes o nome de Deus aparece carregado de inequívoca significação, como em “Sonho de um Monista”:
“…. dentro da alma aflita
Via Deus – essa mônada esquisita –
Coordenando e animando tudo aquilo!”,
onde é identificado à “energia intracósmica divina / Que é o pai e a mãe das outras energias”. Apenas mais um exemplo, o terceto final de “Vox Victimæ”, em que o poeta se refere “Ao corpo ubiqüitário do Creador”.
Alusões, que isoladas também se tomariam por “culturais”, a Jesus Cristo, figuras do Antigo e do Novo Testamento, santos, Buda, o Nirvana, livros sacros e profetas ou iluminados de religiões ou filosofias orientais, – conjugadas revelam interesse que devia ultrapassar a mera curiosidade. Exemplifico, para ser breve, com “O metafisicismo de Abidarma”, do “Monólogo de uma Sombra”;5 as menções ao Ftá-Hotep e ao Rig-Veda, de “Agonia de um Filósofo”;6 Siva, Arimã, o In (“As Cismas do Destino”); “as quietudes nirvânicas mais doces”, a “negra eucaristia”, o “caos budista”, Sidarta, etc. (“Os Doentes”). Não invalidam o argumento, pelo pouco, os passos em que tais alusões ou invocações falam a língua da revolta –e já se antecipou que o espiritualismo de Augusto, sobre heterodoxo, tinha o forte matiz desse sentimento–, como em “As Cismas do Destino”:
“Escarrar de um abismo noutro abismo,
Mandando ao céu o fumo de um cigarro,
Há mais filosofia neste escarro
Do que em toda a moral do cristianismo!”
Quanto às contradições de seu pensar-e-sentir, que oscila entre um Deus na aparência católico, do catolicismo da infância, e teologias mais ousadas, creio-as próprias de quem busca e tateia. Valho-me de Francisco de Assis Barbosa:7
“A procura da verdade, que foi aliás um ideal tolstoiano, levou-o a Schopenhauer e, através do autor de Dores do Mundo, chegaria ao braamanismo e ao budismo. Poderia chegar até ao ocultismo ou ao teosofismo, na mesma estrada percorrida por Fernando Pessoa, que se tornaria vulgarizador em Portugal do esoterismo de Madame Blavatsky e tradutor de todos ou quase todos os livros de Annie Besant. Pois Augusto dos Anjos se informara da ciência esotérica, embora sem ser um iniciático, pelo menos não há notícias disso. Todas essas correntes se cruzam no filosofismo do poeta, bem mais complexo do que aparentemente se supõe, mesmo porque não teria renegado de todo a fé católica. Mas, ainda rezando e aceitando todas as práticas do catolicismo, o seu mundo estaria bem mais próximo de Buda, com a total negação da existência material, à base de uma mortificação moral contínua. O conceito de destino do poeta se confundiria, pois, com o significado búdico da própria vida, o qual foi assim definido por um seu contemporâneo, por sinal dos mais chegados ao autor do Eu, Orris Soares: ‘a existência é má porque está inseparável da dor, havendo a permanência do sofrimento’.”
A transcrição é extensa mas, como se vê, indispensável. E, para demonstrar que o poeta não estava a servir-se de um “filão”, por esnobismo, eruditismo, exotismo, mas exercia uma opção ditada do íntimo, é decisiva esta observação de seu biógrafo:8
“…. não estaria preocupado em seguir a moda, tanto assim que não se impressionou com o positivismo, quando o prestígio de Augusto Comte ainda se mantinha de pé, sobretudo no Brasil.”
Não é ocioso assinalar-lhe, como um dos extremos do pêndulo, a crença, ficta ou verdadeira, nos signos do zodíaco, espelhada no soneto “Psicologia de um Vencido”:
“Eu, filho do carbono e do amoníaco,
Monstro de escuridão e rutilância,
Sofro, desde a epigênesis da infância,
A influência má dos signos do zodíaco.”
A propósito, e para encerrar a transfusão de Assis Barbosa,9retranscrevemos trecho de carta do poeta a sua mãe, Sinhá Mocinha:
“No dia em que fui nomeado” (para o Ginásio Nacional), “referi à Ester seu antigo sonho, concretizado agora iniludivelmente. Ensina um filósofo sombrio da Germânia que as verdades fundamentais da natureza e alguns acontecimentos efêmeros da vida fenomenal são revelados em sonhos, pela psiquê de certos espíritos privilegiados. A inscrição da tábua profética está pois realizada.”
Evidências de que Augusto era esse perquiridor em que temos insistido estão disseminadas por toda a sua obra, e.g.: “– Quem sou? Para onde vou? Qual minha origem?” (“Poema Negro”). E as evidências de que era um torturado da ânsia de autoconhecimento (esse fulcro do pensamento espiritualista mais avançado) vêm desde o título –Eu– do único livro que publicou, sem atenuação nas “Outras Poesias”. Gostaria de citar o soneto “Natureza Íntima”, em que põe na voz da Natureza –com a qual, creio, aí se identifica– estas palavras:
“Pois é possível que Eu, causa do Mundo,
Quanto mais em mim mesma me aprofundo,
Menos interiormente me conheça?!”
“Alma” e “Espírito” são palavras igualmente encontradiças na obra anjosiana. O contra-argumento prévio é que se trata de palavras correntes, indispensáveis, freqüentemente desvinculadas de qualquer sentido espiritualista ou transcendente, para significar a essência, a personalidade, feixes de energias não necessariamente eternas enquanto individualidades. E é preciso reconhecer que, às vezes, pelo menos à primeira vista, o poeta parece aceitar a eternidade da alma tão-só enquanto energia, nisso não ultrapassando a aplicação do princípio de Lavoisier; descrendo, pois, da permanência do indivíduo, da personalidade. Assim no soneto “A um Epiléptico”, tercetos:
“Mas após o antropófago alambique
Em que é mister todo o teu corpo fique
Reduzido a excreções de sânie e lodo,
Como a luz que arde, virgem, num monturo,
Tu hás de entrar completamente puro
Para a circulação do Grande Todo!”
A um segundo olhar, entretanto, nota-se a oposição espírito-matéria, não como no pensamento dualista, mas como aspectos mínimo e máximo da “substância universal”. E só quando assumido o aspecto máximo entra a substância “para a circulação do Grande Todo”. Dos Anjos dá a entender, em vários poemas, que compreende o Universo como infinito cadinho para as transformações da Substância, passando pelo grau maior do espírito mas com vistas à Integração final. Vamos aos exemplos disso e da intencionalidade com que reiteradamente se refere a “alma” ou “espírito”.
De “Último Credo”:
“Creio, como o filósofo mais crente,
Na generalidade decrescente
Com que a substância cósmica evolui…
Creio, perante a evolução imensa,
Que o homem universal de amanhã vença
O homem particular que eu ontem fui!”
De “Gemidos de Arte”:
“Mas a carne é que é humana! A alma é divina.
Dorme num leito de feridas, goza
O lodo, apalpa a úlcera cancerosa,
Beija a peçonha, e não se contamina!”
…………………………………………………………..
“Fico a pensar no Espírito10 disperso
Que, unindo a pedra ao gneiss e a árvore à criança,
Como um anel enorme de aliança,
Une todas as coisas do Universo!
E assim pensando, com a cabeça em brasas
Ante a fatalidade que me oprime,
Julgo ver este Espírito sublime,
Chamando-me do sol com as suas asas!”
…………………………………………………………..
“Seja este sol meu último consolo;
E o espírito infeliz que em mim se encarna
Se alegre ao sol, como quem raspa a sarna,
Só, com a misericórdia de um tijolo!…”
De “A Árvore da Serra”:
“– As árvores, meu filho, não têm alma!”
…………………………………………………………..
“– Meu pai, por que sua ira não se acalma?!
Não vê que em tudo existe o mesmo brilho?
Deus pôs almas nos cedros, no junquilho…
Esta árvore, meu pai, possui minh’alma!…”
Do “Poema Negro” (provavelmente escrito sob clima de desvario):
“Não! Jesus não morreu! Vive na serra
Da Borborema, no ar de minha terra,
Na molécula e no átomo… Resume
A espiritualidade da matéria
E ele é que embala o corpo da miséria
E faz da cloaca uma urna de perfume.”
De “Suprème Convulsion”:
“E a alma o obnóxio quietismo sonolento
Rasga; e, opondo-se à Inércia, é a essência pura,
É a síntese, é o transunto, é a abreviatura
De todo o ubiquitário Movimento!”
De “Guerra”:
“…. avidez com que o Espírito procura.
Ser perfeito, ser máximo, ser forte.”
De “Numa Forja”:
“…. na Natureza,
…. a Matéria avança
E a Substância caminha
Aceleradamento para o gozo
Da integração completa”.
Augusto dos Anjos é não só “o poeta da Morte”, “O Poeta do Hediondo” –expressões dele–, mas também o poeta do fracasso, da estagnação, da “força desaproveitada” (ver “O Lamento das Coisas”, “O Pântano”, “A Meretriz”, “Numa Forja”, “As Montanhas”). Natural isso em quem aspira à transcendência, à plenitude (como se observa em “Último Credo”, passagens de “Os Doentes” e “Queixas Nocturnas”, “Ao Luar”, “Anseio”, etc.), em quem sofre a ânsia da Unidade e por isso queda insatisfeito, angustiado, perplexo ante o inacabado, o heterogêneo mundo fenomênico, o “pluralismo hediondo” (“Louvor à Unidade”).
Quanto ao evolucionismo anjosiano, como se fundamentaria, relativamente ao “aspecto máximo”, isto é, ao espírito? A hipótese reencarnacionista não pode ser desprezada, tantos indícios lhe encontramos no poeta. O mais veemente, talvez, está nos tercetos do “Solilóquio de um Visionário”,11 que reproduzo na íntegra:
“Para desvirginar o labirinto
Do velho e metafísico Mistério,
Comi meus olhos crus no cemitério,
Numa antropofagia de faminto!
A digestão desse manjar funéreo
Tornado sangue transformou-me o instinto
De humanas impressões visuais que eu sinto,
Nas divinas visões do íncola etéreo!
Vestido de hidrogênio incandescente,
Vaguei um século, improficuamente,
Pelas monotonias siderais…
Subi talvez às máximas alturas,
Mas, se hoje volto assim, com a alma às escuras,
É necessário que inda eu suba mais!”
Sabemos que o pensamento espiritualista atribui à dor função relevantíssima no processo de aperfeiçoamento da criatura; será ela um dos motores da evolução, destacadamente no plano espiritual. Não há de ser mera coincidência a importância que (como à morte) Augusto dos Anjos lhe dá. Poderia este fato meramente refletir a ciência de que só por meio dela o Homem cresce em sensibilidade e inteligência, sem conotações espiritualistas. Mas contra a interpretação restritiva se levanta, claro, o soneto “Minha Finalidade” (significativo, para este estudo, pelo que sugere o título, pelo final do primeiro quarteto, pelo todo, enfim):
“Na canonização emocionante
Da dor humana, sou maior que Dante”.
Coerentemente, assim se expressa no belíssimo “Hino à Dor”:
“Dor, saúde dos seres que se fanam,
Riqueza da alma, psíquico tesouro,
Alegria das glândulas do choro
De onde todas as lágrimas emanam…
És suprema! Os meus átomos se ufanam
De pertencer-te, oh! Dor, ancoradouro
Dos desgraçados, sol do cérebro, ouro
De que as próprias desgraças se engalanam!
Sou teu amante! Ardo em teu corpo abstracto.
Com os corpúsculos mágicos do tacto
Prendo a orquestra de chamas que executas…
E, assim, sem convulsão que me alvoroce,
Minha maior ventura é estar de posse
De tuas claridades absolutas!”
Para encerrar esta colheita, quero ainda transcrever dois sonetos. O primeiro, “Canto de Onipotência”, por sugerir uma teleologia espiritualista, coerente com o monismo evolucionista do poeta, em que se vislumbra a final superação do mundo fenomênico e a integração da consciência no “Grande Todo”, no Absoluto, na Divindade:
“Cloto, Átropos, Tifon, Láquesis, Siva….
E acima deles, como um astro a arder,
Na hiperculminação definitiva
O meu supremo e extraordinário Ser!
Em minha sobre-humana retentiva
Brilhavam, como a luz do amanhecer,
A perfeição visual tornada viva
E o embrião do que podia acontecer!
Por antecipação divinatória,
Eu, projectado muito além da História,
Sentia dos fenômenos o fim…
A coisa em si movia-se aos meus brados
E os acontecimentos subjugados
Olhavam como escravos para mim!”
Este outro, “Ultima Visio”, pela cristalinidade do sentido geral:
“Quando o homem, resgatado da cegueira
Vir Deus num simples grão de argila errante,
Terá nascido nesse mesmo instante
A mineralogia derradeira!
A impérvia escuridão obnubilante
Há de cessar! Em sua glória inteira
Deus resplandecerá dentro da poeira
Como um gasofiláceo de diamante!
Nessa última visão já subterrânea,
Um movimento universal de insânia
Arrancará da insciência o homem precito…
A Verdade virá das pedras mortas
E o homem compreenderá todas as portas
Que ele ainda tem de abrir para o Infinito!”
Concluindo, ressalto que o espiritualismo às vezes amargo, revoltado de Augusto dos Anjos não é passível de enquadramento numa denominação, se bem que certas de suas fontes visíveis e a insistência em determinadas noções o aproximem de algumas. As próprias contradições encontráveis no poeta são as de quem procura “apreender o Inapreensível” e, pelo fato mesmo de andar buscando, não pode vestir a camisa do Sistema.
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1. Esta palavra, “espiritualismo”, é conveniente; mas não deixemos de notar que, de um ponto de vista monístico, a oposição espiritualismo x materialismo é oca, fruto de nossa visão parcial.
2. Livraria São José, Rio de Janeiro, 1965. É a edição utilizada para este trabalho.
3. Mantemos, quando implique ou possa implicar diferença fonética, a grafia quase sempre conservadora da edição utilizada.
4. A 20.ª, de Bedeschi, Rio, s/d.
5. Vejam-se as notas de Antônio Houaiss ao poema, in: Augusto dos Anjos, Coleção Nossos Clássicos, n.º 46, Livraria Agir Editora, Rio de Janeiro.
6. Idem, ibidem.
7. Loc. cit., p. 316.
8. Ibidem.
9. Ibidem.
10. Aqui, “Espírito” é a “substância universal” (ver “Agonia de um Filósofo”); na estrofe seguinte, parece identificar-se à Divindade.

11. Clóvis Ramos, citando Fausto Cunha, in: Temas Espíritas na Poesia Brasileira, Sabedoria, Rio, 1969, pp. 120-121.

Leopoldina e Luiz Raphael: um caso de amor

Texto de Alexandre Moreira sobre os quadros em exposição na Casa de Leitura Lya Maria Müller Botelho – Rua José Peres, 4 – Centro – Leopoldina, MG. Aberta ao público de 4 de novembro a 20 de dezembro de 2014, a mostra é patrocinada pela ENERGISA e tem Apoio Institucional da FOJB-Fundação Ormeo Junqueira Botelho.

Luiz Raphael Domingues Rosa é patrono da Cadeira número 14 da Academia Leopoldinense de Letras e Artes.