Lançamento do Calendário Augusto dos Anjos

No dia 7 de novembro de 2014, no Anfiteatro Luiz Raphael do Museu Espaço dos Anjos, o Coral São Gregório Magno abriu a noite de Homenagens pelo Centenário de Morte de Augusto dos Anjos. Em seguida foi apresentado o trabalho Augusto dos Anjos visto por alguns biógrafos e pensadores, preparado pelos acadêmicos José Luiz Machado Rodrigues e Nilza Cantoni. O encerramento da noite esteve a cargo da Secretaria Municipal de Cultura, Esporte, Lazer e Turismo, com o lançamento do Calendário 2015 com motivos relativos a Augusto dos Anjos e sua obra, além de informações históricas de alguns antigos logradouros públicos do centro de Leopoldina.

Roteiro Poético, Roteiro de Vida

Anderson Braga Horta
In: Testemunho & Participação: Ensaio e Crítica Literária.
Thesaurus, Brasília, 2005.
Originariamente, notas para um encontro
com estudantes da UnB, em 8.10.1980

É bom para um poeta, no meio do caminho, parar um pouco e rever alguns de seus passos; o que tem pensado e o que tem realizado em matéria de poesia.  É bom para o investigador do fenômeno poético ouvir o depoimento dos poetas, mesmo —e talvez principalmente, porque não contaminados de parti pris— quando lhes falte um sólido embasamento teórico.  É bom seja colhido o testemunho tanto dos poetas maiores quanto dos menores, ainda que apenas para confirmação do contraste.  Por último, e à parte toda vã filosofia, a verdade é que, a esta altura da vida, é bom lembrar…  E é isto que faço, para atender ao convite amigo e honroso de Heitor Martins e a pretexto de dizer qualquer coisa, perante estudiosos da matéria, sobre minha experiência no campo da poesia.  Pretendo fazê-lo resumidamente, como convém, e aproveitando fatos de minhas circunstâncias pessoais para recolocar em debate alguns problemas da criação literária.  Lanço-os, bem sei, condicionados pela minha ótica; assim, deve esta ser igualmente objeto do debate.
Os Versos mais Tristes do Mundo
O primeiro contacto que me lembra ter tido com a poesia foi a leitura do “Pequenino Morto”, de Vicente de Carvalho, em Vila Boa de Goiás, aí pelos meus oito anos.  Chorei como criança que era.
Hoje, relendo o poema, percebo como o poeta conseguiu, com extrema habilidade, dar ao hendecassílabo junqueiriano a tristeza exigida pelo assunto (à parte o fato de o assunto infundir sua tristeza no verso utilizado).  Ouçamos a estrofe inicial:
                    
Tange o sino, tange, numa voz de choro,
                     Numa voz de choro… tão desconsolado…
                     No caixão dourado, como em berço de ouro,
                     Pequenino, levam-te dormindo…  Acorda!
                     Olha que te levam para o mesmo lado
                     De onde o sino tange numa voz de choro…
                                    Pequenino, acorda!

Comparemos os versos do poeta santista com estes hendecassílabos de Guerra Junqueiro:

                     Vêm sanguinolentos gritos moribundos

                     Das soturnidades torvas do horizonte!

Ou com estes, também do autor de Os Simples:

                     Ai, há quantos anos que eu parti chorando

                     Deste meu saudoso, carinhoso lar!…

                     Foi há vinte?… há trinta?… Nem eu sei já quando!…

                     Minha velha ama, que me estás fitando,

                     Canta-me cantigas para me eu lembrar!…

A estrutura é a mesma em todos esses versos —tônicas na 5.ª e, naturalmente, na 11.ª sílaba—, e notabilizou-a o bardo lusitano.  Quase sempre, os versos dos poemas citados têm acentos secundários na 3.ª e na 9.ª   Não obstante, o andamento dos de Junqueiro é mais rápido que o dos de Vicente de Carvalho.  Por quê? Tão-só pela influência do assunto?  Haverá outros elementos influidores: a dimensão, a estrutura e o timbre dos vocábulos, o sistema rímico, a estrofação…
Lugar da Prosa
Li muita prosa também, desde Vila Boa, mas principalmente em Goiânia, onde prestei o exame de admissão e freqüentei o primeiro ano do Ginásio. Recordo uma página de Humberto de Campos que me entristeceu quase tanto quanto o poema de Vicente de Carvalho; nela, o contista-cronista narra, na primeira pessoa, episódio em que se confessa autor de um furto, na verdade um pequenino furto, quando menino. Fiquei consternado. Da mesma época foi o conhecimento de um livro, tradução do inglês, decerto (acredito ter visto, bem mais tarde, um filme nele baseado), e cujo título seria O Homem Miraculoso (ou O Homem que Fazia Milagres?); faltavam-lhe capa e folha de rosto, não fiquei sabendo quem era o autor; mas foi uma leitura iniciadora. E que dizer dum livreco, também sem capa, intitulado A Boceta de Pandora? Era muito criança, mas tinha já algumas iniciações, e fiquei aturdido e indignado com a possibilidade de se publicar e distribuir, supostamente para a infância, literatura desse desavergonhamento.
Em Goiânia, li tudo o que pude encontrar sob os olhos. De Nietzsche (Ecce Homo, Assim Falava Zaratustra) a Érico Veríssimo (Clarissa, Gato Preto em Campo de Neve) e desses a… Suzana Flag. Minha Mãe pegou-me (até porque não o fazia escondido) lendo Meu Destino É Pecar, de um Nélson Rodrigues encapuzado no pseudônimo feminino. O romance era tão excitante que as últimas páginas vinham com um lacre. Mamãe teve a sabedoria de não me proibir a continuação. Apenas disse que não era literatura das mais indicadas para minha idade, mas, já que eu estava mesmo a folhas tantas… (Como voou o século XX! Poucas décadas depois, aquelas páginas proibidas poderiam ser consideradas literatura para mocinhas…)
Quanto à literatura própria ou impropriamente infantil, de tudo o que me veio às mãos, incluídas as grandes obras de prestigiosa extração européia, nada se comparava à de Monteiro Lobato, que, pelo meu voto esclarecidíssimo de menino devorador de livros, ficava ¾onde fica até hoje¾ no ápice da escala. (Tirante apenas as histórias que Mamãe, à beira de nosso leito, à noite, em Goiás, improvisava para nós cinco.)
Falta mencionar as histórias em quadrinhos. Lia tudo que era gibi, guri, globo juvenil mensal e o mais que havia nas bancas. Por influência delas meti-me a desenhar. No pátio do Dom Bosco e, mais tarde, em Manhumirim, na rua entre a casa de meus avós e o Pio XI, distraído rabiscava na areia ou na poeira os meus heróis prediletos. Tirei um zero em Matemática por debuxar em classe, e no caderno da matéria, uns traços femininos. Cheguei mesmo a idear e desenhar uma historieta em quadrinhos no estilo homérico das que lia…
Por que esta longa digressão? Porque todas essas leituras me refinaram e enraizaram o hábito de ler. E porque a poesia, afinal, não vive exclusivamente nos versos.
O Poeta Vulcânico
Segundo contacto lembrado com a poesia:  leitura do Tesouro da Juventude, em Manhumirim, Minas Gerais (a partir de 1947).  Então, o grande impacto foi Castro Alves, especialmente pel’“O Navio Negreiro”, que, de tanto ler, acabei decorando.  Aqui, em vez da tristeza do poema de Vicente, a euforia, o entusiasmo do moço baiano.
Comecei a desejar ser poeta.  Por imitação?  Claro que sim.  Meus Pais eram poetas.  Castro Alves, conhecimento recente, me acenava com um ideal de beleza que, aos poucos, me fui impondo por meta.  E por aí já se vê que não era só imitação;  havia também um desejo de realização.  Realização no plano espiritual, mais especificamente, no plano estético… sem falar no apelo político-social que é uma das características da poesia de Castro Alves.
As Primeiras Tentativas
Quando me dispus a tentar o poema, estava no 3.º ou 4.º ano ginasial do Colégio Pio XI, em Manhumirim.  Começava a estudar versificação, e isso prejudicou os meus primeiros ensaios:  não aprendera a diferença entre sílaba gramatical e sílaba métrica;  deste modo, ainda que o poema agradasse ao ouvido, não se revelava uniforme à contagem das sílabas, e eu então o violentava para “dar certo”.  Não dava, o resultado tinha de ser antimusical.
Guardo, dessa época, episódio dos mais pitorescos, narrado, aliás, em um de meus primeiros contos.  Meu professor de Português, um padre sisudo e, quanto posso avaliar retrospectivamente, bom conhecedor do idioma, iniciava-nos nas técnicas da versificação.  Tendo-nos explicado (tão bem quanto se verá…) a ciência da escansão; tendo-nos apresentado o alexandrino, e desvendado que se tratava de um verso de doze sílabas, passou à exemplificação.  Não foi feliz na escolha:  o verso “Era uma tarde triste, mas límpida e suave…” (do poema “A Boa Vista”, de Castro Alves) revelou-se refratário ao espartilho dodecassilábico.  Por mais que o mestre contasse e recontasse, o total dava treze sílabas.  Em desespero de causa, decidiu contar de trás pra diante:  “Su/a/ve e/lím/pi/da/mas/tris/te/tar/de u/ma era”.
Deu doze sílabas (“Ah! eu não disse?”).
De como a Geografia Pode Influir numa Vocação
Concluído o ginásio, meu Pai pôs-me num carro e rumamos para o Rio, onde deveria matricular-me num colégio.  Mas, passando por Leopoldina, onde estudara, lembrou-se dos velhos tempos, da boa tradição do Colégio Leopoldinense, e hesitou.  Lembrou-se também de que em Cataguases, cidade próxima, havia um colégio moderno (pela arquitetura de Niemeyer, pelo sistema de internato com apartamentos para dois ou três alunos, por um famoso painel de Portinari sobre a Inconfidência — painel que, por sinal, esteve em exposição em Brasília, há alguns anos, num dos salões do Congresso Nacional).  Fomos a Cataguases.  Acabei, porém, ficando em Leopoldina.  Hão de ter pesado na decisão (que deveria ter sido minha, mas que transferi, por não saber que opção tomar) as boas recordações da juventude que a cidade provocava em meu Pai.
Não sei que caminho teria tomado, se é que algum caminho haveria de tomar, quanto à poesia, caso tivesse ido imediatamente para o Rio.  A propósito da escolha entre Cataguases e Leopoldina, devo lembrar que a primeira foi um centro cultural de vanguarda na província de Minas (do que dava testemunho, desde logo, a modernidade do seu colégio), sendo de relevância para o Modernismo mineiro o grupo congregado em torno da revista Verde.  Já Leopoldina era conservadora e, ainda nos 50, infensa ao Modernismo.
Assim, na tranqüila cidade mineira que acolhe os ossos de Augusto dos Anjos, minha iniciação se fez com fulcro no Romantismo-Parnasianismo-Simbolismo, sendo Castro Alves e Bilac as duas influências avassaladoras dessa primeira fase, que me marcou para toda a vida.
Aprendi a metrificar.
Bom ou mau?
(Antes de continuar, preciso admitir, num parêntese, ser discutível pudesse a escolha de colégio e cidade influir tão determinantemente em minhas opções estéticas.  Como visto, o clima romântico-parnasiano-simbolista estava em minha pré-formação, combinava com o meu temperamento e com as inclinações que em mim já se revelavam.)
Tradição e Modernidade
O culto aos valores tradicionais não é incompatível com a modernidade. É, antes, ao que me parece, indispensável para um modernismo conseqüente, sabedor do que faz, e não meramente iconoclasta.
Sobejamente conhecida é a afirmação que podemos revestir nesta máxima: “É preciso conhecer para romper” — aplicável especialmente à literatura e às artes.  Modernismo e vanguarda não são sinônimos de ignorância…
É, aliás, a lição de Manuel Bandeira que o poeta, moderno embora, há de passar pelo verso tradicional, de haurir destreza nas técnicas e estéticas dos “clássicos” — isto é, dos grandes poetas do passado, qualquer que tenha sido a sua escola (permitam-me usar a palavra, cuja radical exclusão do vocabulário da crítica e da historiografia literária seria, creio, um equívoco e um empobrecimento).
Quase diria que, sem essa educação na arte antiga, grandes e inevitáveis prejuízos terá o poeta.  Mas tentarei ser coerente na aversão ao radicalismo…
Houve em nosso Modernismo poetas —dos maiores— insuficientemente versados na prática daquela arte, e mesmo poetas incapazes de metrificar (seria o caso de Oswald de Andrade). Em contrapartida, a maior parte dos nossos modernistas de categoria superior foram ou são exímios versejadores, familiarizados com todas as técnicas:  Bandeira, Mário de Andrade, Drummond, Cassiano Ricardo, Jorge de Lima, Cecília Meireles, Henriqueta Lisboa, Vinícius… João Cabral também o será, tendo sua versificação raízes antes medievais do que renascentistas. Anote-se, ainda, que a Geração de 45, capitaneada pelo nosso Domingos Carvalho da Silva, e com exemplos num Lêdo Ivo, num Péricles Eugênio da Silva Ramos, adotou sempre atitude de não exclusão entre o antigo e o moderno, sabedora de que este se nutre daquele, e de que a veneração ao primeiro não é óbice à conquista do segundo — sendo-lhe, em geral, condição.
Por Quê Poesia?
Ponho de novo a questão:  por quê poesia?
Adolescente, senti-me fortemente chamado pela poesia.  Antecipei, há pouco, duas razões para isso:  imitação e desejo de realização.  Mas acho que poderia, deveria acrescentar algo.
Sou tentado a dizer que, surgidos inexplicavelmente em meu cerne, em minha alma, em meu espírito, embalavam-me movimentos, vibrações que, se bem que inefáveis, reclamavam expressão — uma exteriorização em forma que as reproduzisse por aproximação, ou melhor, uma recriação, que em algumas organizações assume a forma de música, em outras, uma forma plástica, e em mim assumiu a forma de poesia.  Isto, que a alguns pode soar fantasioso, a mim me parece bem próximo da verdade — e se me mostro, aqui, um tanto reticente é porque não sou capaz de levar às últimas conseqüências, isto é, à origem, a análise do processo.
Há, todavia, para o fenômeno poético, pelo menos outra explicação possível, e não posso omiti-la. Tratar-se-ia de simples catarse, válvula de escape à pressão, às vezes excessiva (principalmente na adolescência), de sentimentos de angústia ou de frustração.
Ora, a realidade é que não costumam ser encontrados na natureza os princípios puros, isolados.  A meu ver, todos os elementos enunciados, e talvez ainda outros que no momento me escapem, estão na raiz do fenômeno poético;  não obstante, apenas um o define:  aquele movimento, aquela vibração a que me referi — combinado, decerto, ao veículo de sua exteriorização, ao corpo poemático, este sim, mais fácil de estudar;  e que por isso mesmo, não raro, estudamos como quem, para conhecer a estrutura do pássaro, o dissecasse, assim lhe interrompendo o vôo e a vida. Corpo e alma, pois, que se manifestam juntos, inseparáveis;  conjunto, porém, de que a inteligência pode extrair, destilar o princípio vital.
Esse princípio, comum à literatura e às artes, é natural que o estudemos na sua manifestação física, quer dizer, no seu corpo — plástico, musical, verbal. Escamoteá-lo, para contornar a dificuldade, senão impossibilidade de o rastrear, ou negá-lo, por prévia convicção filosófica, leva fatalmente a distorções e necroses.
A esse princípio se tem dado o nome de inspiração.
Presença de Minas
Voltemos a Minas…
De Leopoldina carrego, eternas, duas marcas. Uma, literária:  a disciplina do verso, um certo universalismo poético (e aqui, já que falo de poesia, tenho de deixar inscritos os nomes de dois mestres — Geraldo de Vasconcellos Barcellos e Lydio Machado Bandeira de Mello).  A outra, vital: a das primeiras sérias definições afetivas fora do âmbito familiar — amizades indeléveis, a me ligar a outros jovens de então, professores, o povo, o próprio clima de uma cidade para sempre viva e dourada na memória.
Quando, ultimados os preparatórios, fui afinal para o Rio de Janeiro, levava na bagagem grande número de poemas e variada experiência nas técnicas versíficas predominantes até as vésperas do Modernismo (com este só me encontraria, de verdade, em solo carioca).  Ia, pois, —permita-se ao insistente aprendiz recordar ainda uma vez o grande mestre— iniciado na poesia e na vida.
Os Caminhos
A coletânea improvisada sob o título Amostragem Poética, de modo especial na primeira parte, “Balizas de um Caminho”, sintetiza o roteiro seguido por minha poesia, dos inícios românticos ao Modernismo.  Nela deixo representadas todas ou quase todas as fases.
Minhas primeiras tentativas de poema resultaram em fracasso ou, no melhor dos casos, em medíocre prosa ritmada, de que me lembra uma única frase: “Da cachoeira ouvia-se ao longe o rugido monótono”… “Um Olhar”, de feição romântico-simbolista, com evidente ascendência castro-alvina, foi o primeiro poema bem-sucedido.
“Utopia” mantém o tom romântico.
“Navegação”, reescrito após 17 anos, soa-me parnasiano-simbolista.
A leitura dos clássicos côa-se pelo tom e pela linguagem de “Dia Após Noite”.
Já “O Cemitério de Elefantes” é nitidamente parnasiano.
“As Cigarras Estão Cantando Novamente”, polimétrico, é um marco na difícil transição para o verso livre, que já considero presente em “O Tocador de Realejo”.
Em “Labirinto”, novamente, influência dos clássicos do idioma, desta vez com boa dose de afetação.
Nossa popular quadrinha setissilábica está representada em “Trova”.
Da segunda parte, “Alguns Poemas sobre Poesia”,  “Gênesis” é ainda romântico, no sentido mais amplo da palavra;  seus eneassílabos parecem-me devedores daqueles outros, infinitamente maiores, d’ACinza das Horas, de Manuel Bandeira:
                     Eu faço versos como quem chora
                     De desalento… de desencanto…
                     Fecha o meu livro, se por agora
                     Não tens motivo nenhum de pranto ,
com aquele final esplêndido:
                     —Eu faço versos como quem morre.
                                 “Fácil” exemplifica a fase violão-de-rua.
“Torre de Babel” toma, adaptando-os ou não, quase todos os seus versos de outros poetas.
Em “Babélica” e em “Tangente”, a presença do Concretismo, criticamente considerado e livremente utilizado, não como imposição vanguardeira, mas como uma caixa a mais de instrumentos expressivos. Em “(A)mar(o)”, o título é uma construção sintética, em código, cujo  desdobramento e decifração vêm no último verso.
“Telex” e “Multímoda” são duas meditações acerca do fenômeno poético, a primeira uma composição em verso livre, a segunda um soneto decassilábico, ícones da medida velha e da medida nova que alternam, sem altercar, em minha poesia.
Finalmente, na terceira parte, “Livre Escolha”, em que se confirma essa alternância, reúno alguns poemas de minha preferência.
Submeto-os todos, bem como as observações que tenho avançado, ao debate e à crítica.
Com a palavra os amigos.

Fanzine, Música e Lançamento de Livro no Museu Espaço dos Anjos

As atividades do dia 31 de outubro começaram à tarde, com uma Oficina de Fanzine em que os participantes foram estimulados à produção com o tema Augusto dos Anjos. À noite, após a apresentação musical do Grupo Antique, foi a vez do acadêmico Elias Fajardo participar das homenagens através do lançamento de seu último livro – Belo com o Abismo.

Ao apresentar-se, Elias mencionou algumas passagens da trajetória de Luiz Raphael e seu profundo vínculo com Augusto dos Anjos.

Alguns trechos da fala do acadêmico:

Um dos apelidos de Luiz Raphael era justamente “o mordomo de Augusto”. Isto reflete o grande interesse que ele tinha pela obra e pela pessoa do poeta Augusto dos Anjos.
[…]
Depois de viver 9 anos no Rio, Luiz Raphael voltou para Leopoldina em 1972. Eram tempos difíceis aqueles, de ditadura militar e poucas perspectivas para o país. Mas ele resolveu transformar o limão numa limonada. Seu amor por esta cidade era tamanho que ele foi fundo na pintura, reconstituindo uma Leopoldina mais gentil e mais bela do que a que temos hoje.
[…]
Em 1983, criou o Espaço dos Anjos, nesta casa. E foi se tornando aos poucos uma figura ímpar, um centro de referência na memória e na vida cultural de Leopoldina. Ele escolheu a dedo esta casa para alugar, pois nele viveu e morreu o poeta paraibano, cujo centenário de morte se comemora este ano com justas homenagens. Por isto louvo esta iniciativa de louvar também o Raphael, cujo trabalho de formiguinha foi tão importante para que esta cidade não se esqueça do que ela foi e do que ela é. 
[…]
A memória às vezes nos prega peças: ela pode nos fazer recordar bons e maus momentos e situações, mas pode também nos levar a esquecer. Daí meu apelo a todos vocês: não esqueçamos o Raphael e a sua dedicação à cultura e à vida social desta cidade. Se hoje estamos aqui neste centro cultural tão bem cuidado e que é uma referência na memória local, isto se deve ao trabalho pioneiro do Fael ou Izo, como era também chamado.
[…]
Lá estava ele: em festas de debutantes, decorando a cidade para o carnaval, pintando por encomenda as casas de muitos dos habitantes desta cidade, animando eventos escolares, fazendo piqueniques com os amigos na cachoeira de Piacatuba, desenhando e dando aula, comemorando a chegada da Primavera (nunca conheci ninguém, a não ser ele, que comemorasse a primavera). Se alguém quisesse se informar sobre o passado da cidade e da região, tinha um endereço certo no Espaço e nele uma figura sempre disposta a ajudar: o Raphael.
[…]
Neste momento em que sua memória, de alguma maneira, está sendo esquecida, pois “tudo passa, tudo finda, da dor mais forte à ilusão mais linda”, cabe a nós lembrar seu trabalho de décadas, muito pouco remunerado e muito valorizado por quem o conheceu de perto e por quem aprecia, como nós, esta cidade.

Poeta e Mestre de Poesia

Anderson Braga Horta
In: Testemunho & Participação: Ensaio e Crítica Literária.
Thesaurus, Brasília, 2005

Geraldo de Vasconcellos Barcellos – Para Elza
Rede 3 de Junho, Rio de Janeiro, 1996 – Prefácio

Quando cheguei a Leopoldina, em 1950, para fazer o Clássico, o Colégio Leopoldinense vivia um de seus momentos de fastígio. Entre os mestres que, nos próximos três anos, me dariam sua preciosa orientação contava-se, por exemplo, o velho Joaquim Guedes Machado. Português, formado em Engenharia e em Direito, musicista, era o arquifamoso professor de Matemática de quem meu Pai, que fôra seu discípulo no mesmo educandário, lembrava histórias que ressaltavam, quase sempre, o gênio um tanto forte… No meu tempo, esse gênio se abrandara. Em minha lembrança, o que surge é o homem sensível, de notável agilidade mental, atencioso para com o jovem que mergulhava, então, nas primícias voluptuosas de uma torrencial produção poética. Outro europeu ali radicado, com o qual o Machado se esquecia às vezes em longas conversas, era M. Rodolphe Gibrat, que lecionava o Espanhol e sua língua de berço, o Francês. Hamil Adum, advogado e escritor, dava aulas de Inglês, encantando a todos com sua vivacidade e sua simpática facúndia. Oiliam José, poeta, historiador e ensaísta, mais tarde eleito para a Academia Mineira de Letras, que ainda hoje abrilhanta, singularizava-se pela seriedade, pelo comportamento quase monástico, pela voz metálica, monocórdia, com que escandia meticulosamente as palavras. Dava-me a impressão de poder ler os pensamentos da turma, que acompanhava em silêncio as suas preleções. Extraordinária figura era, também, Lydio Machado Bandeira de Mello, que pouco depois deixaria Leopoldina para lecionar Direito em Belo Horizonte (foi professor emérito da Universidade Federal de Minas Gerais). Somam dezenas os volumes de sua obra científica, filosófica, jurídica, teológica, da qual destaco um título, que já naquela época mexia com a minha imaginação: Prova Matemática da Existência de Deus.
Esses, alguns dos mais ilustres membros do corpo docente. Fora do Colégio, porém, outras figuras nos atraíam: Haroldo Barreto, poeta boêmio, de comportamento sui generis, com seu violino (por vezes uma corda só…) e seus belos sonetos decassilábicos; René (filho da severa Prof.ª Regina Monteiro de Castro, que dava Francês e Desenho para o Científico e o Ginásio), com sua conversa inteligente e amiga, com sua companheira atenção para com nós outros, adolescentes famintos de Saber e de Beleza; Murilo Monteiro de Castro, seu irmão, mais arredio, afastado talvez por um halo misterioso de Poeta já feito… De Murilo, que haveria de morrer cedo, afogado, recebi eu certa vez, em seu gabinete odontológico, aonde acompanhava o amigo José Jeronymo Rivera, minuciosa lição sobre a cesura medial do alexandrino ortodoxo.
Essa constelação invulgar lampejava num firmamento iluminado, ainda e sempre, pela estrela magnífica de Augusto dos Anjos, que, professor também, na Cidade consumira o período último de sua vida. (Ignorávamos, então, que outro escritor de grande talento passara por lá, como aluno do Colégio: o tramontano Adolfo Correia da Rocha, que se imortalizaria com o pseudônimo de Miguel Torga.)
No quadro dessa constelação inscrevia-se, como estrela de primeira grandeza, o Dr. Geraldo de Vasconcellos Barcellos. Diplomado em Farmácia e Química por Ouro Preto, e em Direito por Niterói. Em Leopoldina e cidades vizinhas, afirmou-se como advogado criminalista. Como professor, conheceram-no, além do Colégio Leopoldinense, a Faculdade de Filosofia Santa Marcelina, de Muriaé, e estabelecimentos educacionais da antiga Vila Rica, de Mariana e de Valença, nos quais ministrou aulas de Latim, Português, Filologia, Literatura Luso-Brasileira, História, Geografia, Química, Biologia e Sociologia. Pertence à Academia Municipalista de Letras de Minas Gerais e à Academia de Letras Marianense. Tem livros publicados de poesia e oratória. Muito mais numerosas, porém, são as obras inéditas, que abrangem esses gêneros, a Filologia, a Bioquímica, a Biologia e o Direito.
Em todas essas atividades tem brilhado o filho conspícuo de Alvinópolis. Mas para mim, pessoalmente, os dois aspectos mais vívidos da personalidade de Geraldo de Vasconcellos Barcellos são os de Poeta e Mestre de Poesia.
Não posso falar do Professor Barcellos sem falar um pouco de mim mesmo.
Aportei a Leopoldina com algumas tentativas falhadas de poema. Tendo começado apenas a estudar Versificação, não chegara a discernir entre sílaba gramatical e sílaba métrica. Em conseqüência, refugava os versos, ditados pelo ouvido, que minha trôpega escansão dizia heterossilábicos; mas era impossível não refugar, também, os que a incompetente contagem afirmava corretos mas o ouvido não podia acatar. Assim, refugiei-me, humilhado, numa prosa ritmada e rimada, de cujas poucas páginas nenhuma sobreviveu.
Nosso primeiro contacto, em classe, foi quase desastroso. Mal chegado aos quinze anos, franzino, tímido, olhando de baixo para cima aquele homem alto que me interrogava sobre questões de análise sintática, por pouco não provoco um fim-do-mundo ao propor um inocente se para sujeito… Felizmente, recuperei-me logo do tropeção na entrada. E, ao passarmos à poesia, bastaram umas poucas palavras do Mestre para esclarecer, de uma vez por todas, aquelas obscuras questões que me tolhiam o fluxo poético. Em breve, o seu conhecimento, o seu repertório, a sua volúpia verbal, que nos transmitia, valorizando com a voz grave e modulada cada verso, próprio ou alheio, que recitava, haveriam de se tornar uma fonte de encantamento poético e um estímulo às nossas nascentes veleidades.
Em torno do Mestre ¾creio que posso generalizar¾ gravitávamos eu e os outros estudantes que principiávamos a emplumar asas para o vôo poético: José Jeronymo e Deodato Rivera, Hélcio Campomizzi, Gustavo Monteiro de Castro Júnior, José Herberto Dias, meu colega de turma Sebastião Murilo Pereira de Oliveira, Romeu César Leite… (Vou lembrando os nomes e vendo, com saudade, que alguns já se foram para o outro lado… e que a maioria optou, afinal, por outros tipos de vôo, não menos respeitáveis.)
Falei do Mestre de Poesia. Quanto ao Poeta, cabe lembrar serem os seus metros de eleição o decassílabo e o alexandrino, este quase sempre de recorte clássico ¾o alexandrino francês tradicional¾, mas eventualmente na mais moderna modalidade trimembre, senão mesmo na de dodecassílabo sem acentuação definida. Pratica, entretanto, com igual desenvoltura os outros metros ¾ o hexassílabo, a redondilha, o eneassílabo, o hendecassílabo… Os temas parece-me serem, de preferência, o do amor humano ¾neste livro, particularmente, centrado na devoção à esposa querida, motivo de composições anteriores e posteriores ao seu passamento¾e o do amor divino ¾que é a tônica de Na Seara do Evangelho, publicado em Belo Horizonte, em 1959.
Da qualidade poética de seus versos dirá, melhor do que esta prosa rasa, a leitura dos poemas. Não me furtarei, contudo, a indicar minhas preferências. Neste Livro de Elza, considero cumeeiros os sonetos “Sinceridade”, “Mensagem-Convite a Minha Musa”, “Versos de Amor”, “Versos que te não Disse”, “Por entre Escombros” e “Rimas de Amor”.
A dois outros darei destaque especial: “Últimas Palavras” e “Dilema”.
O primeiro, que apresenta a singularidade de um quarteto estrambótico, perfeitamente harmonioso com os quatorze versos anteriores, é belo e pungente na evocação de palavras da Amada em seu leito de morte. Girando em redor dessas palavras, e encerrando com elas o estrambote e o soneto, dá o Poeta ao seu lamento a perenidade da poesia.
“Dilema” oferece um bom exemplo de alusão, com feliz reaproveitamento de versos alheios. Em seu final, conscientemente, o autor se inspira no do soneto “Fermoso Tejo meu”, de Francisco Rodrigues Lobo, em cujo último terceto diz o vate luso, fechando o confronto de si com o pátrio rio:

Mas lá virá a fresca primavera!Tu tornarás a ser quem eras de antes,Eu não sei se serei quem de antes era.

Esse verso final é citado na íntegra em “Dilema”, em que o nosso poeta indaga da possibilidade de permanência ou refazimento, no além, dos laços que o uniam à Amada neste mundo. Mas, como salienta Barcellos, com propriedade, em nota nos originais, o seu soneto “é de natureza escatológica, considerando o nosso último fim, no fim dos tempos, enquanto o do poeta lusitano não sai do tempo e do espaço”.
Para transcrever, aqui, exemplos de elevada inspiração e refinada fatura, prefiro, todavia, servir-me do esgotado Na Seara do Evangelho, deste modo reofertando ao leitor duas páginas esplêndidas da outra vertente do Poeta (e aproveito para sugerir o preparo de uma antologia que abranja, além destes livros, os inéditos).
A primeira dessas páginas é um soneto cujos plangentes tercetos evocam, sem contudo imitá-lo, o Alphonsus do Setenário das Dores de Nossa Senhora:

              IN DULCI JUBILO

Mês de Maria! Em religioso enleio
de rosas, lírios meu sonhar se enflora…
Meu coração fez-se de plumas cheio
para louvar-te, Mãe, Nossa Senhora!
A própria terra enternecida agora
hinos te eleva em doce devaneio.
Mês de Maria! A prece se afervora!
Maio tangendo as esperanças veio!
Tudo são festas! Tudo são laudares!
O céu de novas pompas se recama…
perfumes e orações andam nos ares!…
Mãe de Deus, Mãe dos homens, Mãe das dores,
olha: a minh’alma vai tornar-se flama
 na glorificação dos Teus louvores!….
A segunda, igualmente um soneto, em rigorosos alexandrinos de tom parnasiano-simbolista:

            A ASCENSÃO DO SENHOR
 
Nossa Senhora e os Onze, entre almas traiçoeiras,
ainda estão, ali, na infiel Jerusalém.
Manhã! Brilha a cidade, ao sol sob as seteiros
dos castelos, a olhar, arrependida, o Além.
 
Surge agora o Senhor! É nas asas ligeiras
da própria luz que Ele aparece, que Ele vem.
Vai ao monte subir… monte das Oliveiras!
Com Ele a própria Mãe os Onze vão também.
 
Ei-los, agora, enfim, ao topo da montanha.
Imprecisas, ao longe, as cruzes do Calvário,
tão clara e tanta é a luz que a tudo envolve e banha.
 
Fala aos Onze Jesus! Depois, de manso, lento,
Ei-lo a subir ao céu… Deslumbra-se o cenário…
Desfaz-se o Mestre em Luz, na Luz do Firmamento.

Façamos agora um pouco de silêncio, para a leitura deste livro. Mas, antes de encerrar estas linhas, não resisto ao íntimo apelo de retornar a 1950 e a Leopoldina, para ver-me de novo adolescente, cheio de entusiasmo e de esperanças, a aprender com o Professor Barcellos uma lição que seria para toda a vida.
Como poderia imaginar, aquele menino metido a poeta, que viria a merecer a honra de prefaciar um trabalho do Mestre?

Sarau poético musical do Antique

No dia 29 de outubro de 2014, como parte das Homenagens pelo Centenário de Morte de Augusto dos Anjos, o Grupo Antique promoveu um evento especial no Espaço Porão Odilon Barbosa. O grupo instrumental e vocal, do qual faz parte o acadêmico José Gabriel, vem se destacando pelas atividades em prol da formação de plateia e naquela data realizou um sarau poético musical intercalado com leitura de textos sobre a vida e obra do Poeta.

Minha luta com as palavras

Anderson Braga Horta
In: Testemunho & Participação: Ensaio e Crítica Literária.
Thesaurus, Brasília, 2005.

Palestra pronunciada na Associação

 Nacional de Escritores, Brasília, em 6.10.1998

“Lutar com palavras é a luta mais vã”, diz Carlos Drummond de Andrade num de seus mais prestigiosos e belos metapoemas (“O Lutador”, de José). Começo com a citação ilustre, não para sugerir impossíveis comparações, mas para lembrar que nem só os poetas de menor porte suam a pena para agarrar a poesia. Assumindo o risco de exagerar, diria que suam, isto é, trabalham, principalmente os grandes. Não que dispensem eles a inspiração, ou não acredite eu nessa quimera. Pelo contrário, para mim, a inspiração é fundamental. Só que dificilmente é bastante. O vero cultor da palavra trabalha esforçadamente a dádiva da inspiração, a fim de transformar o lampejo em peça inteiriça, que não se limite a sugerir suas potencialidades. Atribui-se a Samuel Johnson a afirmação: “O que é escrito sem esforço é geralmente lido sem prazer.” Escrever é cortar palavras, dizem outros autores, como o nosso Marques Rebelo, assim enfocando um aspecto particular dessa luta. Os que se contentam de escrever como falam, pontificava Buffon, no seu famoso Discurso sobre o Estilo, “ainda que falem muito bem, escrevem mal”. Epigramaticamente, como tão bem o sabia fazer, brincava a sério Mário Quintana: “O estilo é uma dificuldade de expressão.” Já que falei em Quintana, e para não deixar dúvida quanto ao sentido do trabalho ou da luta do poeta, encerro estas citações com outra jóia do Caderno H: “A beleza de um verso não está no que diz, mas no poder encantatório das palavras que diz: um verso é uma fórmula mágica.”

“No entanto lutamos mal rompe a manhã”… Entrevistado, para o Suplemento Literário do Minas Gerais, por Carlos Roberto Pellegrino (edição de 11 de março de 1970) e por Danilo Gomes (27 de novembro de 1976; entrevista reproduzida por Danilo no 1.º volume de seu Escritores Brasileiros ao Vivo, de 1979), consignei o que me parece definidor do meu processo de criação. Ampliei-o em entrevista a João Carlos Taveira (revista Literatura, junho de 1996), da qual transcrevo o trecho correspondente:

“O poema nasce quando quer. O ritmo, a idéia, a imagem, às vezes todo um verso, a semente do poema se oferece de improviso. Em geral é algo muito vago, uma nebulosa que gira na mente do poeta; mas pode ser o verso inicial, como pode ser o fecho de um soneto. Daí para a realização do poema vão algumas horas, ou dias, ou meses, e sempre muito trabalho. Quase sempre: há poemas que se oferecem meio feitos.

Não será assim com todos. Mas é assim comigo.

Em minhas reflexões sobre o poético tenho anotado que o poeta joga com dois elementos: inspiração e construção. O primeiro não se manifesta sem o segundo — seria como uma alma sem corpo. Há, todavia, poetas cerebrais que afirmam prescindir do que chamo inspiração — o gérmen dado, ou intuído. Mas até um poeta de construção, orgulhosamente intelectual e antilírico por excelência, como João Cabral de Melo Neto (‘Esta folha branca / me proscreve o sonho, / me incita ao verso / nítido e preciso’, diz em ‘Psicologia da Composição’), parece admitir, ainda que sob uma capa de ironia, algo dessa ordem, por exemplo, em ‘O Último Poema’, de Agrestes, ao dizer: ‘Não sei quem me manda a poesia’.

Não dispenso a disciplina, o lavor, o rigor na construção do poema. Mas, se não me vem espontânea a centelha, a fogueira queima em falso… ou não queima. Tentei, há anos, a via intelectual autônoma: todo dia me obrigava a escrever, a página branca diante dos olhos, movendo a pena uma experiência já ponderável do fazer poético. Fazia. Mas o poema não prestava. (Há, todavia, um truque para cutucar a inspiração, para provocar o poema: suscitar o estado de poesiapela leitura de poesia, pela audição de música, enfim, por qualquer maneira adequada à sensibilidade do poeta; ou estudar o tema desejado, meditar sobre ele e largá-lo, deixando que o subconsciente trabalhe, até emergir a fagulha detonadora.)

Assim, apesar de toda a disciplina, todo o formalismo que, com razão, me imputam, considero-me um poeta de inspiração.”

Seja como for, a luta do poeta com as palavras é uma luta amorosa.

Quanto ao poema oferecido, a que aludi numa dessas linhas, há o exemplo extremo do poema sonhado (Coleridge, Bandeira…) e o menos raro do que vem espontaneamente, já pronto, sem trabalho, esforço ou luta aparente (sem andaimesde Bilac). “Iludo-me às vezes, pressinto que a entrega se consumará. Já vejo palavras em coro submisso, esta me ofertando seu velho calor, outra sua glória feita de mistério …. Cerradas as portas, a luta prossegue nas ruas do sono.” A luta, então, não será do poeta com as palavras, mas das palavras entre si…

Permitam-me ler um poema de minha autoria, não por supostas virtudes estéticas, mas pelo que ele sugere dessa luta das e com as palavras. Intitula-se “Apoese” e está em Altiplano e Outros Poemas:
APOESE


Mudas, incriadas,
jazem no possível
todas as palavras.
Nesse limbo inscrevem-se
invisivelmente
todos os poemas
ditos, por dizer,
mais os indizíveis.
Nesse limbo se amam,
bicam-se as palavras,
numa intimidade
por nós mal sonhada.
Relações repousam
insolicitadas,
frases adormecem
de desinvocadas,
e afinal se cruzam,
crispam-se, eriçadas
na ânsia de uma língua
boca, pena, gesto.
Nesse inesgotável
lago das palavras,
onde tudo encontra
seu signo prateado,
mergulhou o Homem
e pescou sofismas,
teses, xingamentos,
jogos, alguns poemas.
Infinito é o Sonho
que, irrealizado,
dorme em apoese
nesse obscuro lago.

Não fui um poeta precoce. Minha luta com as palavras começou por volta dos 14 anos, em Manhumirim, Minas Gerais, em cujo Colégio Pio XI cursava o 4.º ano ginasial. E começou com uma fragorosa derrota. Arrebatado na espiral encantatória dos versos de Castro Alves, desejei ser poeta. No que, por sinal, seguiria o exemplo dos pais. E deitei mãos à obra. Sucedeu, porém, que, tendo tido, havia pouco, minhas primeiras lições de versificação, e não as havendo assimilado corretamente, acabei diante de um impasse: escritos os versos, punha-me a conferir-lhes as sílabas; mas, ignorando a distinção entre sílaba métrica e sílaba gramatical, não havia meio de acertar as exigências do ouvido com as exigências da “teoria”. Contentei-me, por então, com uma prosa ritmada, de que não guardo cópia, mas de que me ressoa ainda a frase inicial: “Da cachoeira ouvia-se ao longe o rugido monótono”…

A propósito, em mais de uma ocasião, tenho recordado um fato pitoresco. Meu professor de Português, competente embora, também não havia assimilado a lição… Tinha a teoria na ponta da língua, mas, não sendo poeta, faltava-lhe aquele “saber de experiências feito”; faltava-lhe, em suma, a prática do poema. Em classe, apresentando exemplos de alexandrino, escolheu, por azar, o primeiro verso do poema “A Boa Vista”, do vate das Espumas Flutuantes. E escandiu:

“E/ra u/ma/tar/de/tris/te,/mas/lím/pi/da e/su/a/ve…”

Dava treze sílabas. Errado! (Faltava-lhe o conhecimento do alexandrino arcaico, também dito espanhol.) Se forçasse a sinérese em “suave”, quebraria o galho com um dodecassílabo sem cesura francesa. Mas isso não lhe ocorreu. Ocorreu-lhe, sim, escandir o verso de trás pra frente, e do expor passou incontinênti ao fazer:

 “Su/a/ve e/lím/pi/da/mas/tris/te/tar/de u/ma e/ra.”
Deu certo (esquecida a problemática cesura)!

(Perdoe o velho mestre, aqui anônimo, a maldade repetida de lhe recordar, in absentia, um minuto anedótico. De justiça é manifestar minha gratidão, e, com cinco décadas de atraso, agora o faço, pelo devotamento, pela clareza e pelo rigor de seu magistério, a que devo o abrir de minha até então obnubilada mente aos sóis de nossa língua.)

A metrificar aprendi mesmo no ano seguinte, na também mineira Leopoldina (de Augusto dos Anjos e de Miguel Torga), onde cursei o Clássico. Enfim compreendida a lição, tentei logo um soneto. Bem sucedido, ou quase (em termos métricos…). Intitulei-o primeiro “Orvalho Celeste” e, em seguida, “Orvalho Sideral”. Terão os amigos paciência de ouvi-lo?

    ORVALHO CELESTE

 No espaço… em pranto estava o firmamento.
Os astros… eram lágrimas ardentes,
que gotejavam pelas faces quentes
do Universo. Este gemia: “Eu lamento
aquela flor tão bela, solta ao vento,
açoitadas as pétalas frementes
pelas carícias vis de vis serpentes,
beijadas pelo solo lamacento.”

E era grande, tão grande a sua dor
que, do infinito, as lágrimas caindo,
no límpido regaço iam da flor

depositar-se (oh! símb’lo de ternura!)…
seus sofrimentos, mágoas mil carpindo,
deixando-lhe no seio a jóia pura.

15 de maio do ano santo de 1950. Quase meio século. Mas deixemos de lado o tempo, que não nos deixa. Quero aproveitar essa canhestra composição, feita mentalmente, num banco de jardim, e só depois passada para o papel (do que não fiz um hábito), para lhes dar o primeiro exemplo meu de transpiração em cima da inspiração. Fiz-lhe uns retoques, logo que me senti com mais cancha, e nessa versão um pouco menos rude peço permissão para redizê-la:

  ORVALHO SIDERAL

No espaço – em pranto estuava o firmamento.
Os astros – eram lágrimas ardentes
que gotejavam pelas faces quentes
do Universo. Era do éter o lamento
por uma flor singela solta ao vento,
açoitadas as pétalas frementes
pelas carícias de cruéis serpentes,
beijadas pelo solo lamacento.
E era tão grande e bela a etérea dor
que as estrelas, rolando-se do Infindo,
a límpida corola iam da flor
buscar na Terra, e –oh! cimos de ternura!–
iam as lágrimas do céu, caindo,
brilhar na flor qual outra estrela pura!
Falei em sonetos iniciados pelo último verso. É o caso dos que fiz a partir das onze chaves de ouro sugeridas por Guilherme de Almeida (diversos poetas aceitaram o desafio, de que alguns se saíram bem, entre estes o nosso Henriques do Cerro Azul). Mas vou preferir outra ilustração. O poema “No Horto”, de 1959, incluído em Incomunicação, tinha, originalmente, no fim da primeira estrofe, este verso: “Dentro do coração somos todos românticos.” Era um terceto, assim:

Meu coração espera as oliveiras
e os pães e os peixes do milagre.
(Dentro do coração somos todos românticos.)

O poeta amigo Deodato Rivera (irmão do recém-editado e já tão festejado tradutor de poesia José Jeronymo) tanto espinafrou o indigitado verso, tachando-o de explicativo e, pois, expletivo, ou melhor, inútil, portanto pernicioso, que acabei cortando-o. Concordo que naquele contexto não fazia falta. Mas continuei gostando do verso. Tanto que, trinta e três anos depois, o engastei num soneto de alexandrinos mistos, parnasianos e arcaicos. Ei-lo:
PULSO
—Qual no espaço exterior, no antro de nossas mentes
há momentos também de sóis deliqüescentes,
de etéreos candelabros num puro azul sem rastros!
—Somos feitos da mesma seiva de luz dos astros.
—Oh, a negra cabeça da noite rola do alto…
Sermos também lastrados de queda e sobressalto…
—O pulso que na esfera mais mínima palpita
é o mesmo que lateja na galáxia infinita.
—Mas eu sinto que o peito uma ânsia azul me invade
de ser somente luz, acima, imensidade!
Sinto que há dentro em mim um eu que me transcende!
Sobe o mar interior, e no abismo que ascende
Algo vem se formando como espumas e cânticos!
—Dentro do coração somos todos românticos.

Já que, insensivelmente, fui transformando este depoimento num buquê de curiosidades, permitam-me ainda outras. Em 1954 escrevi o seguinte poema:

MANHÃ DENTRO DA NOITE
Vontade de voar para lá do horizonte,
sentir a força cósmica em meu peito,
nas vastas solidões intermundiais.
Vontade de sofrer toda a dor do universo,
para depois cristalizar num verso
as transfigurações universais.
Deve ser belo o azul naquela intimidade
que as almas gêmeas entrelaça.
Deve ser belo
sentir, flutuando, a melodia eterna
e a suprema visão do infinito,
sorrindo
na transcendente afirmação do Ser!
Ah, pudesse eu diluir-me, espiritualizado,
no mistério do espaço constelado!
Tenho medo, porém… A frialdade etérea
havia de gelar-me as canções na garganta.
E o universo, oprimindo-me o peito sombrio,
mataria a ilusão de asas partidas
que dentro de meu ser murmura e canta.
Tenho medo, e soluço.
O Cruzeiro do Sul ironiza, de bruços,
minha aflição profundamente triste.
O mundo não existe,
nesta hora longa, ao meu olhar de louco…
E eu vou compreendendo, pouco a pouco,
a beleza sublime de ser triste
e a glória incompreensível de ser louco!

              Em 1997, reaproveito a inspiração desse poema solto e construo este outro:
   ENDECHA
Ânsia louca de voar para além do imperfeito,
abrir à força cósmica o meu peito
nas vastas solidões intermundiais!
Ânsia triste de haurir toda a dor do Universo
e –semideus!– cristalizar num verso
as transfigurações universais!
Ao invés, o horizonte atro me fecha.
Velha, a planger-se, a Soluçante Endecha
chora-me a mim, como invertida fonte.
Tolhe-me o novo, em tudo oculto, o velho.
Outro éter! outra luz! outro evangelho!
……………………………………………………………..
Vontade de voar para lá do horizonte…

Mais se vive, mais se muda de pele, mais se é o mesmo… Não obstante, transpirando sobre a inspiração de quarenta e três anos, de certo modo, produzi novo artefato. Melhor? Quantas vezes “corrigi” um poema para pior… Sorte é percebê-lo. Neste caso, porém, talvez pudéssemos cogitar de inspiração cumulativa: o fruto de uma inspiração inspirando um derivado…

Seria de esperar que um poeta, falando de sua arte, selecionasse para exemplificá-la os seus melhores poemas. Aqui, faço quase o contrário… Rendendo-me de vez ao pitoresco, lembro um soneto hendecassílabo, feito a duas mãos, à mesa de um bar, com o Deodato Rivera. Batizamo-lo de “Soneto Horrível”: “Pela noite austera badalando triste, / chora ao longe um sino, lívido ao luar. / Quanta nostalgia, quanta mágoa existe / neste seu plangente, negro badalar.” Tão horrendo, mesmo, que a tempo o devolvo ao silêncio do esquecimento. Seja-nos perdoado o delito estudantil (estávamos em 1953, em Leopoldina).

Ilustrativos, também, da tensão entre inspiração e trabalho podem ser os centões, poemas feitos mediante a recombinação de versos alheios, caso em que o segundo pólo quase se resume em transpiração…

Retomo a deixa da “Endecha” para recordar como, de tão outra maneira, não um poema, porém um punhado de poemas me serviu de espoleta para a deflagração do livro que julgo o mais bem construído dentre os meus. Em 1964-65, revoltado com a Redentora, escrevi uma série de agressivos poemas de protesto, em torno dos quais e a partir dos quais acabei ideando os Exercícios de Homem. O livro foi crescendo (chegou a ter cem ou mais composições) e, à medida que crescia, organizando-se e universalizando-se, e, à medida que se organizava, minguando em quantidade, de modo que a versão final (reduzida a cinqüenta e uma peças) funciona —assim o creio, sem maiores pretensões— como um só poema, uma espécie de epopéia moderna, uma espécie de epopéia do espírito. Dessa versão definitiva, pelo que tinham de datado, de circunstancial, de mais perecível, portanto, foram alijados exatamente os poemas-estopim, ou poemas-gatilho, em torno de vinte (além de outros que desloquei para o Cronoscópio). Serviram de catalisador, e foram sacrificados. Sob o rótulo Poemas Escritos com Raiva, ou simplesmente Poemas com Raiva, pretendo publicá-los na reunião de livros intitulada Fragmentos da Paixão.

Minha poesia se vale, indiferentemente, do verso medido e do verso livre, das formas fixas e das imprevisíveis, do antigo e do moderno. Como, porém, o tempo que nos resta não comporta outras leituras, escolho para encerrar esta conversa um poema recente, vazado na forma do que deu início à minha aventura poética: um soneto decassílabo às antigas. Leio:

 LASCIVA EMBRIAGUEZ

   Lasciva embriaguez da poesia,
da música e do amor! Uma só cousa
sois vós para quem quer, para quem ousa
o mergulho na vaga fugidia
que é o impulso da vida. Fugidia
mas constante, um arder que não repousa,
que desconhece o falso estar da lousa,
que funde o ser na sempiterna via.
Ó divina embriaguez, toma-me os passos
e deixa-me sonhar pelos espaços
do Ser, indiferente à realeza
da fortuna e da glória, inteiro e salvo
de toda circunstância, que é teu alvo
o coração fremente da Beleza!

Obrigado, amigos.

A noite de 24 de outubro no Museu Espaço dos Anjos

O Anfiteatro Luiz Raphael recebeu um público variado que assistiu declamação de poesia, palestra e lançamento de livro em homenagem ao Centenário de Morte de Augusto dos Anjos.

A atividades se iniciaram com palestra da acadêmica Maria José Ladeira Garcia, Rememorando Augusto dos Anjos. Em seguida a acadêmica Glória Barroso declamou alguns poemas ali no espaço onde ele passou os últimos meses de vida. E Margareth Franklin completou a noite com o lançamento de seu livro Cutubas: Clube de Negros, Território de Bambas, fruto de uma interessante pesquisa sobre esta associação leopoldinense.


Da privilegiada formação de um grande poeta-tradutor

Anderson Braga Horta
Academia Brasiliense de Letras,
em 20 de março de 2014.

Conheço José Jeronymo Rivera, e de então nos fizemos amigos, desde os remotos tempos de nossa adolescência, nos bancos escolares, em Minas Gerais.

Em 1950, Leopoldina era ainda um importante centro educacional –apelidavam-na Atenas da Zona da Mata–, vivo e procurado por estudantes de toda procedência, em que pese a concorrência da contígua Cataguases, cujo Colégio, projeto de Oscar Niemeyer, com jardins de Burle Marx, móveis de Joaquim Tenreiro e um vigoroso painel de Portinari sobre o Tiradentes, como que continuava a explosão modernizadora de Humberto Mauro, da Revista Verde e da Meia-Pataca de nossa Lina Tâmega. Já não existiam os cursos superiores, mas o Colégio Leopoldinense continuava lá, imponente, com sua fachada grega e, no vértice do triângulo, a inscrição latina Mens agitat molem.  Tinha um corpo docente de elevado nível. Ainda lá pontificava o quase lendário Professor Machado, figura extraordinária de educador e grande figura humana. Português, engenheiro formado na terrinha, exerceu a profissão na região que Vivaldi Moreira gostava de chamar “a grande Carangola”, passando logo a educador e dono de um educandário. Tinha fama de truculento. E evocá-lo me sugere uma precoce digressão.

Já no Leopoldinense, Machado foi mestre de meu pai, que gostava de falar de sua cultura e suas façanhas. Contava-se, por exemplo, que chegara a “atirar” um aluno para fora de classe, pela janela… Não quero repeti-lo, contudo, sem o cuidado de lembrar que as salas de aula do velho colégio lançavam porta e janelas para um corredor interno; de modo que a queda não podia ser grande; na verdade, era praticamente simbólica. Mas a fama chegou até os nossos dias. Contrariando-a, nosso convívio com ele era timbrado por sua delicadeza de trato e por seu interesse em música (tocava o seu violino) e literatura, notadamente poesia.

Outro europeu dava ali seu contributo à educação (num tempo em que podíamos ainda usar a palavra com propriedade): o francês Rodolphe Gibrat, que lecionava sua língua natal, a espanhola e a latina.

Se os dois europeus brilhavam, havia também a prata da casa. Nosso professor de Português, o poeta Geraldo de Vasconcellos Barcellos, era um deles. E Hamil Adum, nosso irrequieto professor de Inglês. E Lydio Machado Bandeira de Mello, meu patrono na Academia Leopoldinense de Letras e Artes, cuja carreira magisterial culminou na cátedra de Direito Penal da Universidade Federal de Minas Gerais. E –finalizando, para não me estender em demasia–, o polígrafo Oiliam José, ainda hoje atuante na Academia Mineira de Letras, de que é secretário honorário.

No quadro assim superficialmente esboçado inseriu-se à maravilha o José Jeronymo, ou simplesmente Jeronymo, como o chamava a maioria dos colegas. Grande leitor, era visto aos domingos num dos bancos da praça fronteira ao colégio, sobraçando os jornais de fim-de-semana, entre eles o enorme Estadão. Lia-os, como  costumávamos dizer, de cabo a rabo. Como em sociedade nada se perdoa, ganhou o apelido de Zé Jornaleiro. Era senhor de grande acuidade mental e memória incomum. Tendo parado de estudar durante algum tempo, juntamente com seu irmão, Deodato, manteve contudo o interesse em coisas de cultura, de modo que sobressaía notoriamente na multidão dos alunos. Tirava sempre dez em todas as matérias. Sua excepcional proficiência levou as autoridades eclesiásticas a contratá-lo para lecionar no seminário local. Às vezes corrigia proposições desatentas de algum docente nem tão qualificado. Havia um, talvez menos dedicado, que freqüentemente lhe passava a batuta e limitava-se a lhe assistir à aula, quase como um de seus alunos. Certa vez –hoje estou dado a digressões…– um professor, por implicante discordância em questão de somenos, atreveu-se a lhe dar um nove e meio. A injustiça foi causa de um quase-tumulto na escola. Posso dizer que o Zé se tornou, em pendant com o velho Machado, quase uma lenda, se não um herói, no âmbito da escola e da cidade.

Por esse tempo começamos a fazer poesia, José, Deodato, eu e mais alguns amigos. Do grupo, era ele o mais aparelhado para o poema, especialmente o tradicional, que requeria conhecimento e leitura. Nem lhe faltava –tão cedo!– alguma dolorosa experiência de vida: filho de Emílio Vello Rivera e de Helena Pinto Ribeiro Rivera, ficou órfão da mãe aos oito para nove anos (Helena morreu na cidade de Barbacena, o que me incita a imaginar, meio que divagando em nuvens, a ida do jovem a Minas como inconsciente busca de identidade; idéia gratuita, vá lá; mas uma coisa é certa: Minas representou para os dois órfãos um rito de libertação); seguiu-a o pai, no Rio de Janeiro, cerca de um ano depois. Os primeiros versos de Rivera foram já de causar inveja a muito poeta veterano. Um soneto, e que soneto! Veja-se como, após ligeira hesitação inicial, a dicção se consolida no segundo quarteto, a idéia-sentimento ascende na tríade seguinte e, impulsionada pela gradação do verso undécimo, vai culminar no áureo terceto final:

VIDA E SONHO
Não sou poeta. E embora faça versos

Em mim não sinto o espírito criador

Que entre caracteres tão diversos

Distingue o ser feliz do sofredor.

Meus sonhos e quimeras vão, dispersos,

Levados por um vento acolhedor,

Através da amplidão dos Universos

Da Fantasia, do Ideal, do Amor.

Que a vida humana, um desejar constante,

Uma nova ansiedade a cada instante,

Ontem e hoje, hoje e sempre se resume

Num sonho inebriante que sonhamos,

Do qual, como lembrança, conservamos

Apenas o nostálgico perfume…
Um soneto sério, para um adolescente poeta. Vive-se então a fase em que o pensar se prepara para o vôo, mas em que também se começa a pagar à vida o tributo do amor. E o jovem poeta dá, naturalmente, testemunho do seu. Vejamo-lo noutro soneto:

VISÃO NA ALVORADA

A aurora vem raiando. O véu negro da noite

Dilui-se, a pouco e pouco, à luz de um novo dia,

Como se fosse um brando, um suave e leve açoite

A varrer da amplidão a manta escura e fria.

As brumas da manhã que nasce bela e clara

Dissolvem-se no espaço, alvas, esmaecidas,

Cobrindo de rubor a face que beijara

O sol a dardejar em setas coloridas.

No firmamento azul, um pássaro dolente

Gorjeia sem parar, saudando a madrugada,

Na sinfonia agreste e virgem do nascente.

E eu que vou indo triste a caminhar na estrada

Vislumbro na harmonia imensa a minha frente

– Sorrindo para mim, o teu olhar de fada!

Seu Aprendizado Poético (título do opúsculo que publicou pela Thesaurus, em 2004, reunindo essas primícias) completou-se em cerca de três anos, de 1951 a 1953. Também aqui mereceria nota dez, caso submetido a avaliação. Alguns dos poemas aí enfeixados saíram em livro em 1994 (Alma Gentil – Novos Sonetos de Amor, organização de Nilto Maciel); em 2003 participaria com uma composição brasiliense na Antologia de Haicais Brasileiros, organizada por Napoleão Valadares.

Em 1953, seu último ano em Leopoldina, coube-lhe, mercê do currículo privilegiado, comandar a ressurreição do jornal dos estudantes. De maio a outubro tirou, como diretor, auxiliado pelo irmão, secretário, sete edições do Três de Junho. O número inaugural, datado de 5 de maio, trazia no editorial, assinado por José Jeronymo Rivera, com uma palavra sobre o renascer do órgão estudantil –“das próprias cinzas”, como a Fênix–, uma profissão de fé jornalística: 
A nossa linha de conduta–dizia– será invariavelmente uma: a verdade. A verdade em toda e qualquer hipótese, a verdade cristã na vanguarda da luta diuturna contra o erro e a mentira, a verdade pura e imaculada de nossa crença pautando o nosso pensamento e as nossas palavras, contendo nossos impulsos e fazendo-nos agir em conformidade com os princípios sagrados de nossa formação moral e religiosa.

No final da página 2 estampava o soneto “Espectros”.

Ainda naquele mês, no dia 20, saía o número 2, com matéria editorial intitulada “Maio, Mês das Mães” e, fechando a edição, o soneto “Mãe”. O terceiro número saiu na data epônima do jornal, data de fundação do Colégio, Rivera assinando matéria alusiva e estreando uma coluna de cinema, com artigo sobre o filme japonês O Sino de Nagazáki. Em nova edição, vinda a lume no dia 20 do mesmo mês de junho, o editorial é sobre a “Subversão de Valores” em que se engolfava a cultura brasileira, com a ascensão do materialismo, do culto ao dinheiro e à notoriedade, em detrimento dos valores intelectuais e espirituais construídos por homens do porte “de um Ruy, de um Joaquim Nabuco, de um Teixeira de Freitas, de um Machado de Assis, de um Osvaldo Cruz, de um Bilac”; e a novidade é a criação de uma “Galeria dos Poetas Brasileiros”, aberta pelo próprio Rivera com o autor de “Cantilena” (“Quando as estrelas surgem na tarde, surge a esperança…”). Em 5 de agosto, o poeta da “Galeria” é Cruz e Sousa, e a página de abertura é sobre “o problema do ensino” – e é melancólico assinalar que sentimos saudade da educação que se ministrava in illo tempore, que a decadência, que a insuficiência verberada pelo editorialista, embora a razão que decerto o amparava, representaria hoje um avanço, um progresso, seria, mesmo, quase um patamar ideal, ressalvada a tecnologia de que atualmente podemos dispor. No penúltimo número, de 10 de outubro, o poeta homenageado é Moacir de Almeida, e o editorial, “Notas sobre Cultura”, tem palavras que permanecem atuais – a unificação da humanidade ainda está no plano da esperança, é bem verdade, mas as expectativas continuam válidas:

O mundo é um só: apesar da ignorância e do atraso de algumas grandes massas humanas, sobretudo do Oriente, a vida espiritual e intelectual da humanidade tende a unificar-se, em um futuro não muito remoto talvez. As conquistas da ciência necessitam expandir-se mais e mais: já não há lugar para alheamento ou indiferença. O homem sente que é chegado o momento em que todos os povos da terra se unam e, desprezando os fatores maléficos de desagregação e a diversidade de tradições e princípios, trabalhem harmoniosa e eficazmente pela conquista da paz ….

Finalmente, em 25 de outubro, a edição de encerramento do ano – e da Fênix renascida sob o condão riveriano. José cede a primeira página para um conto de Deodato, “História de um Menino Triste”. O editorial vai para a última página; intitula-se “A Hora da Decisão”, toma por mote a obra de Stefan Zweig Brasil – País do Futuro, cita Ronald de Carvalho (“O erro primordial das nossas elites, até agora, foi aplicar ao Brasil, artificialmente, a lição européia”) e aponta as mazelas a combater, num discurso infelizmente ainda atual, mesmo quanto ao analfabetismo, se não esquecemos –e não devemos esquecer– sua permanência no que se convencionou chamar de analfabetismo funcional. Ei-las, na palavra do ginasiano de então:
o combate ao analfabetismo que obumbra a mente de setenta por cento do nosso povo; a melhoria do padrão de vida do homem no campo, evitando-se o êxodo das populações rurais; a difusão e a reorganização completa e objetiva do ensino, propiciando melhor aproveitamento e maior número de técnicos e profissionais especializados, e não apenas bacharéis, muita vez desprovidos de idéias e cheios de ambição; a distribuição equitativa das riquezas, em relação ao esforço e à capacidade de cada um; e, acima de tudo, a revisão dos valores, atribuindo-se a cada fator uma  posição hierárquica, de acordo com a sua importância intrínseca, bem como a compreensão individual das responsabilidades e dos deveres, dos direitos e das obrigações perante o tribunal da nacionalidade e perante o tribunal da consciência.
Jeronymo não volta para Leopoldina em 1954. Sem sua presença dinamizadora, a Fênix morre de vez. Imprimiu-se, todavia, uma edição extra, comemorativa do septuagésimo quinto aniversário do Colégio, em 1981.

Detenho-me nessa breve sobrevida do Três de Junho porque me parece uma realização importante na história do Colégio e definidora do caráter e dos interesses culturais de Rivera. Esses interesses o levariam à formação profissional como Engenheiro Civil, Administrador de Empresas e Economista, ao magistério de nível médio e superior, ao exercício de importantes funções no serviço público, no Rio de Janeiro e em Brasília, à colaboração em programas radiofônicos de música clássica e, abreviando, à literatura, notadamente como tradutor de poesia. Em virtude da sobrelevação desse veio nas áureas minas riverianas, dedicar-lhe-ei com exclusividade a segunda parte desta oração.

Aluno de Francês da Professora Regina Monteiro de Castro, teve já no Ginásio uma boa exercitação na faina tradutória; mas a tradução propriamente literária só veio a tentá-lo em Brasília, em meados dos anos 70. Tendo abandonado precoce e injustificadamente a prática do poema, foi esse o meio que preferiu para reaproximar-se ativamente da poesia (como leitor, nunca se afastou dela).

A publicação em livro de algumas das primeiras traduções ocorre em 1976, com Capital Poems (Victor Alegria – Thesaurus, 1989) e Caliandra – Poesia em Brasília (André Quicé Editor, 1995). O primeiro livro próprio, na espécie, teria de esperar o ano de 1998, quando publica pela Thesaurus Poesia Francesa: Pequena Antologia Bilíngüe, com apresentação nossa, de Arino Peres e de João Carlos Taveira. Foi uma estréia esplêndida, mostrando um poeta de grande força a empregar o seu talento na transposição de autores que iam de Guillaume de Machaut (c. 1300-c. 1377) a Paul Éluard (1895-1952). A segunda edição, dada a lume dez anos depois, esticaria este termo até os nossos dias, com os contemporâneos Yves Bonnefoy e Philippe Jaccottet. Dentre as esmeradas versões em nossa língua é difícil escolher. Qualquer uma traduziria dignamente o bem-recompensado esforço de Rivera. Fiquemos com Baudelaire, poeta de nossa predileção, aí representado preeminentemente –o destaque é meu– por dois sonetos, “Recueillement” e “La Musique”; e, dentre esses, por causa da musicofilia que nos é comum, com o segundo:

A MÚSICA

A música me atrai, muita vez, como o mar!

Rumo à etérea estrela,

Sob um teto de bruma ou na amplidão solar,

Ergo minha vela;

De peito para a frente e com os pulmões inflados,

Qual fossem de tela,

Escalo à vaga imensa os cimos sublevados

Que a noite me vela.

Sinto vibrar em mim o fervor das paixões

De um barco sofrendo;

O bom vento, a tormenta e suas convulsões

No abismo tremendo

Me embalam. Vez a vez, calmaria a espelhar

Todo o meu penar! 

A recepção da Pequena Antologia foi consagradora. Saudaram-na entusiasticamente cerca de três dezenas de escritores de mérito e nomeada. Da numerosa relação pinço, pelo denso de seus comentários, alguns nomes significativos: Alphonsus de Guimaraens Filho, Carlos Nejar, Cleonice Berardinelli, a portuguesa Dalila Pereira da Costa, Fausto Cunha, a italiana Luciana Stegagno Picchio. Se monótono fôra enumerá-los, inviável é transcrevê-los. Limito a exemplificação a um deles, Alexei Bueno, cujo depoimento resume admiravelmente o impacto positivo da estréia riveriana, ao passo que o declara “um dos maiores tradutores de poesia do Brasil”:

Suas traduções –diz ele– são magistrais, algumas inigualáveis. O “Recolhimento”, do Baudelaire, que julgo dos maiores sonetos da língua francesa, está extraordinário, mas o grande espanto é o quase impossível Cemitério Marinho. Que grandes soluções as suas, e que arte em abandonar as consoantes pelas toantes nos momentos inevitáveis, criando verdadeiras surpresas no que seria uma irregularidade e mantendo de ponta a ponta o tom e o registro altíssimo desse poema sem paralelo.

Não posso deixar, contudo, sem menção o veredicto de Fausto Cunha, objeto de nossa comum admiração. Para o contista de As Noites Marcianas e ensaísta de O Romantismo no Brasil, a Pequena Antologia é em verdade grande, e o “Cemitério Marinho”, “um muitíssimo bem sucedido morceau de bravoure”.

De 1999 é Cidades Tentaculares (Les Villes Tentaculaires), primeiro livro de Émile Verhaeren traduzido integralmente entre nós. Rivera tem pronta para o prelo a tradução de outro livro desse belga de expressão francesa, Les Heures. Em 2001 lançou as Rimas de Gustavo Adolfo Bécquer. Dessas, que lhe valeram o prêmio Cecília Meireles, da União Brasileira de Escritores – Rio de Janeiro, quero lembrar um poema que apreciamos desde as primeiras lições de Espanhol, em Leopoldina:

Do salão em um ângulo escuro,

de sua dona talvez olvidada,

silenciosa e coberta de pó

via-se a harpa.

Quanta nota dormia nas cordas,

como o pássaro dorme nas ramas,

esperando sentir a mão nívea

que sabe arrancá-la.

–Ai –pensei–. Quantas vezes o gênio

assim dorme no fundo de uma alma,

e uma voz, como Lázaro, espera

que lhe diga: “Levanta-te e anda”!

Outra novidade em português são os poemas em prosa do Gaspard de la Nuit, de Aloysius Bertrand. Nosso querido Xavier Placer historia, no prefácio:

ORA CONHECENDO as traduções de poesia francesa e espanhola de José Jeronymo Rivera, sugeri um dia que traduzisse o Gaspard. E ele, de Brasília, em suas costumeiras cartas fonadas: – Aceito o repto! Correu a informar-se em detalhe com o bibliófilo e musicólogo Sérgio Luiz Gaio, que possuía o raro autor em bela edição e que ainda o fez ouvir bertrandianos poemas musicados por Ravel.

Após declará-lo “tradutor fiel e exigente”, diz mais:

Ao trabalhador intelectual José Jeronymo Rivera, de formação matemática, musical e literária, louvação não é preciso. O feito e bem feito o promove.

Cabe salientar entretanto que, com sólida experiência neste ofício difícil (Ortega y Gasset qualificou-o de “faena improbable/ pero de gran sentido” em Ideas y Creencias – Miseria y Esplendor de la Traducción), mais uma vez saiu-se bem, confirmando premiações por outros trabalhos.

Porque sabe que traduzir é servir, mas não se escravizando à letra, atualizando com inteligente e aberto critério, ah! e jamais se substituindo ao Autor. Fundo e forma aqui estão preservados: sabor do original. E sem retirar a feição estética do volume, quis acrescê-lo do instrumental informativo. Além da cronologia de Bertrand apresenta a fortuna crítica mais nova do Gaspard de la Nuit.

Mereceu esse trabalho (como os anteriores, edição da Thesaurus; data: 2003) excelentes críticas de Adelto Gonçalves, Antônio Olinto, Manuel Hygino dos Santos e Rubens Shirassu Júnior.

Dez anos depois vem a lume, pela mesma Editora, A Voz a Ti Devida, do poeta espanhol (da famosa Geração de 27) Pedro Salinas (de quem, aliás, tem também José Jeronymo, prontas, a tradução de Razón de Amor e Largo Lamento, completando a “trilogia amorosa”, além das versões de El Contemplado e Todo más Claro). Rivera, esse “poeta disfrazado de traductor”, na feliz expressão de José Antonio Pérez-Montoro, que assina o estudo introdutório, foi, a propósito, alvo de lúcido comentário de Adelto Gonçalves, que o aponta como “um dos grandes tradutores das poesias espanhola e francesa para a Língua Portuguesa”. Nas orelhas, o poeta João Carlos Taveira registra “a marca de qualidade da tradução de José Jeronymo Rivera, com a confirmação do velho axioma: ‘Todo tradutor de poesia deve ser, em essência, um poeta.’”

Nosso poeta-tradutor lançou ainda um bom número de edições do mesmo gênero (todas bilíngues) em parceria com autores do porte de um Fernando Mendes Vianna e um José Augusto Seabra: Poetas do Século de Ouro Espanhol (Embaixada da Espanha / Thesaurus, 2000), laureado com o Prêmio Joaquim Norberto, da UBE – Rio de Janeiro; Victor Hugo: Dois Séculos de Poesia (Thesaurus) e O Sátiro e Outros Poemas (Galo Branco), em 2002; Antologia Pessoal de Rodolfo Alonso (Thesaurus) e 25 Sonetos Descaradamente Eróticos, de José Antonio Pérez-Montoro (Círculo de Estudos Clássicos de Brasília), ambos de 2003; e Antologia Poética Ibero-Americana, organizada por Pavel Égüez para a Asociación de Agregados Culturales Iberoamericanos (Cuiabá, 2006). Participou, finalmente, com traduções inversas, do português para o espanhol, no belíssimo volume, organizado por Seabra, Poetas Portugueses e Brasileiros dos Simbolistas aos Modernistas (Instituto Camões / Thesaurus, 2002).

Na coleção Livro na Rua, da Thesaurus, publicou, além de seu Aprendizado de Poesia, na condição de organizador: Humberto de Campos: Poesia; Xavier Placer: Poemas; Miguel Torga: Contos e Almeida Garrett: Poesias.

Completando o quadro de suas atividades literárias: tem realizado palestras na Associação Nacional de Escritores e na Biblioteca Nacional de Brasília, e colaborado em periódicos como Literatura, Revista de Poesia e Crítica, Revista da Academia Brasiliense de Letrase Jornal da ANE.

Encerremos nossa homenagem a esse tradutor extraordinário com outra exaltação à arte de Euterpe, na voz privilegiada de Albert Samain, privilegiadamente modulada por José Jeronymo Rivera:

MÚSICA

Se palavras não há que possam de minha alma,

Nesta noite, conter a ânsia de sossegar,

Que um arco puro se erga e cante, e seu cantar,

Sozinho, me transforme o sonho ansioso em calma.

Ó taça de cristal com a lembrança que ensalma!

Ó Música, tu vens minha sede matar;

Só no segredo teu, como um lábio a beijar

Outro lábio, instintiva, a alma se funde e acalma.

Soluço de ouro!… Estranho e divino mistério!

Um vento de asa corre, e é como um refrigério;

Mãos de anjos vêm passear em nós sua doçura,

Harmonia, e tu és a Virgem amorável,

A criança gentil que em seu peito emoldura

O nosso coração imenso e miserável.

José Jeronymo Rivera vem enriquecer nossa orquestra acadêmica de um instrumento raro. É-lhe destinada a Cadeira n.º XXVIII – Olavo Bilac, antes ocupada por Clovis Sena, ilustre jornalista, poeta e ensaísta, como nós amante da música, dileto amigo nosso desde os inícios de Brasília. 

Bem-vindo seja.